O cinema Argentino e a Tragédia Latino-Americana

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É impressionante a força do cinema argentino em retratar o cotidiano do seu país, sendo ao mesmo tempo original e universal, pelos temas e propósitos de muitas de suas obras.

A complexidade da sociedade argentina (e, porque não, latino-americana) é encenada com um frescor criativo e profissional sempre estimulante, o que faz do cinema do país vizinho a experiência cinematográfica mais interessante e bem-sucedida do subcontinente na atualidade.

Assisti recentemente dois filmes que se somam à galeria de boas obras do país vizinho: “Relatos Selvagens” (2014) de Damián Szifron e “O Clan” (2015), de Pablo Trapero.

O primeiro é uma sucessão de pequenos recortes violentos, irônicos e bárbaros da tragédia Argentina e Latino-americana.  A corrupção endêmica, os privilégios, a burocracia estatal que atua em pró unicamente de seus interesses, a violência latente de uma luta de classes adormecida, mas nem por isso desapercebida. A realidade distorcida e fantástica da América latina está toda ela retratada no delicioso filme de Szifron.

A estrutura narrativa é dividia em 6 pequenas histórias, com personagens e tramas distintas. Em comum entre elas é a certeza da nossa falência humana, dos auspícios de tolerância e equilíbrio. Da Hilária primeira história, “Pasternak”, ao último, que mostra a explosão de fúria de uma noiva ao descobrir uma traição do seu agora marido, o filme esparrama humor negro e certo sadismo, envolto numa produção primorosa (impressionante os feitos técnicos do cinema argentino: seus planos sequência bem desenhados, os efeitos especiais cada vez mais convincentes e suas edições sempre seguras).

O filme que ficou mais de um ano em cartaz na cidade de São Paulo calou fundo a alma atormentada do paulistano, prisioneiro do seu mundo de migalhas humanas e das suas relações esquizofrênicas com o mundo.

O filósofo Vladmir Safatle escreveu, recentemente, que nós (brasileiros) não somos propriamente um país, pelas divisões internas de visão de mundo e sociedade. Nossa divisão, cada vez mais aberta e violenta, faz com que dividamos, infelizmente, o mesmo espaço geográfico com as pessoas que pensam diferente de nós. Essa tragédia brasileira é também uma tragédia latino-americana.

Engraçado refletir, portanto, como um filme sarcástico e provocativo como esse fez tanto sucesso numa das mais conservadoras cidades do mundo. Certamente, o riso foi canalizado para o grotesco, mas com a imaginada superficialidade de uma plateia que busca, fundamentalmente, algo que ela possa identificar e rir.

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Já o filme de Pablo Trapero (O Clan) é um impressionante relato de um dos mais famosos e intrigantes casos policiais da Argentina, que conta a história do “clã” Puccio e sua vida criminal singular, que combinava a típica vida da família nuclear com os crimes mais violentos, como sequestros e assassinatos. E, em muitos momentos, com uma bizarra intersecção entre esses universos.

O filme é um painel instigante da sociedade argentina, que mergulhou nos seus labirintos mais sinistros durante a ditadura. O sinistro protagonista, Arquímedes Puccio (interpretado de forma ameaçadora pelo formidável Guillermo Francella), o tipo de criatura que emerge como pústula em regimes ditatoriais, agindo como torturador ou mesmo “sumindo” com as pessoas, identifica uma oportunidade para sua “vida profissional”, ou seja, passa a sequestrar pessoas ricas e, usando dos seus contatos na polícia, acobertar seus atos. Quando recebia a quantia pedida à família, assassinava a vítima, deixando os parentes e amigos sem notícias e perdidos. Um monstro.

O filme relata a dinâmica da família Puccio e sua relação com a, digamos, “profissão” do patriarca, o que nos remete a uma estranha sensação de delírio, mesmo que saibamos que aquilo aconteceu. É a certeza que a realidade sempre, SEMPRE, pode ser mais fantástica que a mais inimaginável ficção.

Trapero passeia com a câmera pela casa-cativeiro, entregando planos-sequência virtuosos e eficientes, sempre em benefício da Trama. Me pareceu uma narração mais contida que seus filmes anteriores, como “Abutres” (2010) e “Elefante Branco” (2012), ainda que o desfecho do filme seja, igualmente, dramático e súbito como os finais trágicos e erráticas dos personagens dos seus filmes anteriores.

O diretor continua perseguindo os pecados da sua Argentina, mas ele é tão latino-americano ao fazê-lo. Percebemos que, mesmo que tenhamos eventualmente diferenças em nossas trajetórias nacionais, nossas violências e degenerações são tão comuns que, sem muito estranhamento, reconhecemos aqueles personagens, aquele clima sufocante de violência institucionalizada, aquela desolação ardida e cáustica.

Mas, diferente da nossa cinematografia, que com bravas exceções (como o “O Som ao Redor” de Kleber Mendonça), não tenta traçar muitas conexões entre a alma fraturada do Brasil atual com os legados da ditadura, o cinema Argentino (e diga-se, o Chileno também) escancara esse trauma, discutindo as resultantes psíquicas e sociais de uma ferida que ainda não cicatrizou, seja através da dureza do cinema de Trapero ou mesmo pelo lirismo melancólico de Campanella.

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