A Resistência Popular em “Era o Hotel Cambridge”

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Ontem (04 de setembro de 2017) corrigi uma falta vergonhosa da minha pretensa cinefilia, e assisti “Era o Hotel Cambridge” (2016), da Eliane Caffé.
O filme apresenta uma sucessão de personagens humanos, profundamente humanos, que resistem contra a opressão do estado e o descaso (acrecido do ódio dos últimos anos) da sociedade.
Acompanhamos um grupo que invadiu um prédio abandonado do centro, o antigo Hotel Cambridge. A organização das pessoas por meio da conscientização política emociona.
Os relatos dos refugiados (uma das grandes forças do filme) revela o absurdo de um país que os aceita institucionalmente (nas palavras de um dos refugiados, “para fazer bonito na ONU”) para depois persegui-los e privá-los de direitos e oportunidades.
Numa sequência pequena mas muito impactante, o espectador consegue ler as “opiniões” carregadas de ódio, deixadas pela malta raivosa das redes sociais, no blog criado para mostrar o cotidiano das ocupações.
É admirável o cuidado da diretora em não criar recursos narrativos (muitas vezes maniqueístas) para verbalizar a luta e a consciência dos ocupantes. Eles falam por si, expondo seus temores, preconceitos e esperanças. Outro feito do filme é a composição orgânica entre ficção e realidade, que atuam juntas para potencializar o vigor da história e de personagens tão carismáticos.
E tem o José Dumont, com o seu “Apolo”, uma espécie de “Glauber” popular, de furiosa criatividade e ímpeto. É fato:José Dumont é foda!!!
O filme é um contraponto (assim como o filme “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós) ao cinema conservador do mainstream brasileiro, que aposta na sede vingadora da classe média, através dos seus filmes sobre policiais e juízes justiceiros.
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“Nós somos mais fortes…Nós somos o Povo…”
Filmes são retratos da vida, das posições políticas, sociais e culturais em disputa na sociedade. O Filme de de Eliane Caffé está do lado daqueles que resistiram, e continuam resistindo. Nesse sentido, tem a força de um “Vinhas da Ira”, de John Ford. Quem não se lembra da matriarca, vagando com sua família pelo desolado meio-oeste americano pós-depressão de 1929? Ela diz, mais ou menos assim: “Mesmo contra tudo, nós sobreviveremos. Somos mais fortes e resistentes que eles. Nós somos o povo”…
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A guerra como evento trágico em “Dunkirk”

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Na Guerra, todos são igualmente alvos incógnitos e descartáveis

Passados 72 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o conflito ainda faz a cabeça de cineastas e do público. Só no passado recente nos lembramos de filmes como “Stalingrado” (Rússia – 2013), “Terra de Minas” (Dinamarca – 2015), “O Filho do Saul” (Hungria – 2016) e “Até o último Homem” (EUA – 2016).

Dado que o presente é marcado pelo cinismo, pela dubiedade dos líderes, pelos sucessivos fracassos políticos em todos os espectros ideológicos, a Segunda Grande Guerra aparece, ainda, como o conflito moral que ocupa o imaginário do mundo, em especial no Ocidente.

E, exatamente no meio do impasse político e econômico representado pelo Brexit, o cineasta  Christopher Nolan lança seu épico sobre o conflito, “Dunkirk” (2017), atraindo contra si um certo tipo de crítica que, ao politizar seu filme, rotula-o como obra conservadora e anti-europeia.

O Evento histórico de Dunquerque foi fundamental para a continuação da Inglaterra na resistência ao nazismo. Ao mesmo tempo, significou uma derrota militar vergonhosa, expondo as fragilidades militares britânicas e consolidando a imagem de invulnerabilidade das forças armadas nazistas, até que estas fossem derrotadas nas batalhas de El-Alemein, em 1942, e principalmente, Stalingrado, em 1943.

O filme relata bem a relação dos Ingleses com o Mar, refúgio e fortaleza para a ilha que sempre temeu a Europa.

E Nolan traz sua maquinaria técnica para filmar o evento histórico, a não-batalha de Dunquerque, cidade do litoral Belga e refúgio para aproximadamente 400 mil soldados (entre Britânicos e Franceses), nos primeiros meses de 1940, durante a esmagadora Blitzkrieg alemã. Sua decisão de filmar uma derrota revela a conhecida predileção do diretor pela desesperança, presentes em vários dos seus filmes. Dramaticamente falando, é sempre instigante filmar o derrotado e sua altivez moral, até a sua conseguinte redenção, caminho escolhido pelo roteiro (de Nolan) para o fim do filme.

Portanto, o tema de “Dunirk” não significa um contraponto na carreira do seu Diretor, mas sim uma evolução temática, prova inconteste do seu poder e influência na indústria, onde os propósitos definidos por ele para a sua nova obra são bastante ambiciosos.  Desde a narrativa entrecortada, que estabelece a confusão da “Névoa da Guerra” como talvez nenhum outro filme até agora, até o superlativo trabalho de direção, tudo enche os olhos (e os sentidos) no novo filme de Nolan.

Muito se escreveu sobre a ausência de um eixo narrativo clássico para o filme, personagens bem construídos que pudéssemos investir emocionalmente na sua jornada, culpando o roteiro por essas falhas. Mas, mesmo reconhecendo que a Direção de Nolan sempre foi mais acabada que o seu texto, entendo que aqui o roteiro serve bem às intenções do Diretor, de criar uma imersão psicológica na guerra, nos fazendo sentir o horror de um ataque aéreo ou a angústia de estar preso no porão de um navio que afunda.

Uma guerra é o ato insano de matar jovens. Eles morrem desavisadamente, vítimas da própria inexperiência no ofício de matar. Acabam morrendo e, com isso, servem de exemplo para os que vivem. Morrem como moscas antes que saibamos seus nomes. No clássico de Samuel Fuller, Agonia e Glória (The Big Red One – 1980), um soldado explica porque um recruta é ignorado, maltratado mesmo, quando chega numa unidade militar qualquer durante a guerra: “para que não nos afeiçoemos a ele”. O filme de Nolan abre com essa lógica radical, quando um estampido surdo irrompe a cena (assistam em IMAX, apenas assistam). Um a um os jovens recrutas vão caindo. Não enxergamos os algozes, só corremos com aqueles garotos.

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“Atonement” (Desejo e Reparação), de 2007, dirigido por Joe Wright

Numa certa sequência, os soldados estacionados na praia (em estranha ordem, quase alienados, esperando um resgate distante, longe do caos mostrado no brilhante Travelling de “Atonement” – 2007, de Joe Wright) são atacados pelos temidos Stukas da Força aérea alemã. E assistimos uma sequência de pavor. O extraordinário desenho de som dá ares fantasmagóricos para os aviões e seus silvos de morte. Para onde correr? A mis-en-scène é meticulosamente construída e a experiência é das coisas mais aterradoras de que me lembro. A precisão histórica do filme, sempre observando o pavor psicológico de um ataque aéreo realizado por um bombardeiro de mergulho, é brilhantemente encenado. Lembremos que a Blitzkrieg era a inovação tática da Alemanha nazista, onde a cominação do emprego de muitas armas engajadas num mesmo teatro operacional provocava pânico e desolação. O ataque aéreo era a assinatura mais perversa dessa nova forma de guerra. Os Stukas representaram esse pavor, e “devemos” a ele os massacres de Guernica, Varsóvia e Amesterdã.

A câmera vai seguindo Tommy (era assim que os soldados ingleses eram chamados, desde as guerras napoleônicas), interpretado por um inexpressivo Fionn Whitehead. Sua inexpressividade e o seu faro para a sobrevivência (e para a tragédia) ocupam a maior parte da projeção.

A direção escolhe o aturdimento de sons e sensações às vísceras expostas de Spielberg e Gibson. A fria naturalidade da cena torna tudo mais cortante, porque a banalidade de morrer naquelas circunstâncias é a violência maior de uma guerra. Após o ataque, a soldadesca levanta, se organiza em suas estranhas filas, e espera…até o próximo ataque.

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“Saving Private Ryan” (Resgate do Soldado Ryan), de 1998, dirigido por Steven Spielberg

E aqui, mesmo estruturado em propósitos e estilos distintos, não é errado afirmar que não existiria “Dunkirk” sem “Saving Private Ryan” (O Resgate do Soladado Ryan), de 1998. A imersão psicológica exposta no desenho de som e nos sussurros da enigmática trilha sonora de Hans Zimmer, que nos assombra em todo o primeiro filme foi sim influenciado peta catarse de violência do segundo (em especial na assustadora sequência do dia D). Da mesma forma, a fotografia dessaturada de janusz kaminski (que influenciou toda a linguagem fílmica do gênero) encontra ressonância na proposta visual que Hoyte Van Hoytema concebe para o filme de Nolan.

Os saltos e voltas provocadas pela estrutura do roteiro causa, talvez intencionalmente, a sensação da desorientação provocada pela guerra, aquilo que Clausewitz chamou de “Névoa da Guerra”, expondo a mortal confusão do teatro militar. Entendendo essa lógica fica mais palatável a estrutura do filme, que divide o filme em três histórias distintas, na Terra, no Ar e no Mar (talvez aqui o diretor tenha sido influenciado pelo famoso discurso de Churchill, feito logo depois de Dunquerque, onde o líder britânico estabelece as regras simples da guerra dali por diante: eles resistiriam em todos os lugares, sempre…e nunca se renderiam), onde acabam se encontrando e interseccionando num determinado momento do filme.

Se o filme acompanha os soldados como pobres diabos desafortunados, escapando de ataques aéreos e naufrágios, confere aos pilotos o protagonismo das cenas mais conscientes do filme. Mesmo diante do caos e da confusão (ressaltadas pela edição que estrutura a narrativa em três eixos distintos), suas ações são governadas pela responsabilidade e senso de entrega. Novamente recorro a Churchill, onde, num discurso, disse sobre os pilotos da RAF: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. Pois é isso. Após Dunquerque, a Luftwaffe (força área alemã) partiu sedenta para destruir a capacidade industrial e militar dos Ingleses. Durante longos meses, a “Batalha da Inglaterra” foi travada nos frios espaços aéreos das cidades britânicas (majoritariamente Inglesas), entre jovens pilotos de ambos os lados. E ai, graças a obstinação da RAF, o país não caiu, assim como todo o ocidente. Nolan presta incontida homenagem aos homens da RAF, fotografando o Sptifire de Farrier (Tom Hardy, econômico até mesmo em função do papel que interpretava), em especial na sequência final, onde o piloto conduz heroicamente o avião vazio de combustível até o pouso na praia de Dunquerque. É o momento do gozo emocional, onde a trilha dissonante e onipresente de Hans Zimmer liberta-se das suas funções narrativas (chega a antecipar, com seu ruído, os ataques aéreos dos aviões alemães), ensaiando um motivo melódico; a fotografia de Hoytema torna-se mais quente do que qualquer outro momento do filme.

Por fim, toda a mis-en-scène trata a guerra como um evento trágico, quase como um efeito de perversidade da natureza. Não se menciona a palavra “Nazista” nem mesmo uma única vez. Não se enxergam alemães, mas somente as máquinas controladas por eles. Mesmo no final do filme, alguns poucos soldados num quadro desfocado são vistos. O filme não quer o apoio da simbologia maléfica do nazismo, o que não deixa de ser uma opção bastante interessante, que dá coerência narrativa e de propósitos à obra.

Essa ausência do discurso político deixa o filme de Nolan potencialmente acrítico, naquilo que nos acostumamos entender como mensagem antibelicista. No entanto, ao mostrar a guerra como uma sucessão de angústias e pavores psíquicos, onde a morte é uma consequência naturalizada e aceita, o diretor consegue imprimir, com a sua obra, uma experiência imersiva única, e por vezes apavorante, da guerra como tragédia humana, mesmo que, para isso, abra mão conscientemente da emoção e de personagens mais próximos do espectador para nos fazer entender que, numa guerra, só podemos protagonizar nossos medos e instintos de sobrevivência.

O Medo e a Paranoia da era Bush jr. no pequeno clássico “O Nevoeiro”

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O Medo e o Pânico são densos como a névoa

Talvez nenhum outro filme tenha retratado tão bem as paranoias e esquizofrenias da era Bush Júnior como o pequeno grande filme de Frank Darabont (que dirigiu e foi responsável pelo roteiro), “The Mist” (O Nevoeiro), de 2007, baseado num livro do escritor Stephen King. Uma época marcada pela desesperada vingança estadunidense após o 11/09, levando de roldão o equilíbrio da democracia naquele país e permitindo o progressivo desrespeito aos direitos humanos, em nome de uma subjetiva “Guerra ao Terror” que afetou, basicamente, o mundo inteiro.

O filme, de produção modesta (para os padrões estadunidenses), não foi um grande sucesso naquele ano, custando pouco mais de US$ 18 milhões e arrecadando US$ 25 milhões nos EUA. A audiência não achou palatável o tom cético do filme. Contudo, as locadoras e a crítica especializada souberam reconhecer o valor da obra, elevada ao status de “Cult” por apaixonados defensores. Eles provaram estar certos. O filme continua assustadoramente atual nas suas ambições políticas e narrativas.

A história evolui rapidamente, a partir de um estranho nevoeiro que toma conta de uma pequena cidade, trazendo com ela estranhas e mortais criaturas e forçando um grupo de sobreviventes a se entrincheirar num mercado local, sufocados pelas incertezas e, principalmente, diferenças entre aquelas pessoas e de como elas interpretam o estranho fenômeno.

O fantástico aqui é utilizado pelos roteiristas como uma oportunidade de mergulhar nas tensões e conflitos que assolam a sociedade estadunidense. E nesse aspecto ele apresenta momentos que estão entre os mais tensos do cinema comercial estadunidense no passado recente.  À medida que os fenômenos se tornam mais misteriosos e mortais, seu entendimento começa ser disputados por grupos que suspeitam da ação de “terroristas” até o fatalismo religioso do castigo divino. Destaca-se a assustadora personagem Mrs. Carmody (Marcia Gay Harden, na melhor atuação do filme), uma fanática religiosa que, ao proporcionar um discurso apocalíptico sobre os acontecimentos, se torna, de longe, a maior ameaça para as pessoas que tentam desesperadamente sobreviver.

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o Capitalismo Zumbi de “Dawn of the Dead”, de 1978, um clássico do gênio George Romero

A ação se passa quase que inteiramente nas dependências de um pequeno mercado, num dos símbolos da nossa civilização, e mesmo não sendo original no seu propósito (George Romero já fizera isso em seu clássico “Dawn of the Dead” – 1978), não deixa de ser interessante a ironia do roteiro.

O próprio nevoeiro funciona (na correta e angustiante fotografia de Rohn Schmidt) como admirável analogia do medo, por engolir a civilização e tudo que nela vive. Pior, limita a capacidade das pessoas em enxergar saídas e engendrar soluções para os problemas enfrentados.

O diretor Frank Darabont avança a trama de forma admirável, aproveitando-se do clima claustrofóbico para criar um ambiente de progressiva tensão. O tom da obra é eminentemente pessimista, seja pelo destino apontado pelo roteiro, seja pela tese que o filme desenvolve sobre a própria civilização, onde o homem encurralado e assustado costuma, normalmente, cair na tentação da violência caótica e desesperada. Somos bichos irascíveis e infantilizados, e isso se mostra claro quando as estruturas que suportam a vida social (o estado, notadamente) desaparecem. Destaca-se também a sensibilidade de Darabont para filmar o material original de Stephen King.como admirável analogia do medo, por engolir a civilização e tudo que vivi nela. Pior, limita a capacidade das pessoas enxergara saídas e engendrar soluções para os problemas enfrentados pelas pessoas.

Assustador pensar que o filme é mais atual do que nunca, ainda mais por conta da sucessão de atentados, em especial na Europa, ocorridos nos últimos 3 anos, com o reflexo político imediato: a assunção da estrema direita e do nacionalismo mais belicoso no mundo. Os medos irradiados por essa onda conservadora estão, todas elas, no filme de

Alguns filmes empalidecem com os anos. Outros melhoram a cada projeção. É o caso de “O Nevoeiro”.

O escapismo doce e virtuoso de “La La Land”

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O doce escapismo de Gosling e Stone…

O filme La La Land, do diretor Damien Chazelle, vem arrebatando opiniões apaixonadas no Brasil. O encantamento vem da lustrosa fotografia de Linus Sandgren (inspirada no filme de Jacques Demy, “Os Guarda-Chuvas do amor”), que investe numa paleta de cores vibrantes e quentes, destacando o clima e a luz da cidade, além da óbvia simpatia do casal de protagonistas: Ryan Gosling (Sebastian) e Emma Stone (Mia), distribuindo sorrisos, charme e simpatia…

Tematicamente, o filme me lembra um pouco o clima onírico de “Viver e Amar em Los Angeles (L.A. Story)”, de 1991, escrito, produzido e interpretado por Steve Martin, onde ele transforma congestionamentos, poluição, tardes ensolaradas e Hollywood (com seus sonhos e dramas) em um lugar mágico. Martin escreveu uma declaração de amor sincera para uma cidade acusada, normalmente, de fútil e imediatista, cortada por autopistas e enfartada por congestionamentos quase ininterruptos.

E Chazelle faz graça dessa imagem, numa abertura realmente impactante, onde as pessoas saem dos seus carros e começam a dançar, quase como protesto poético, contra o congestionamento em uma manhã qualquer. O Plano sequência é elaborado e a câmera mostra agilidade girando, se elevando e driblando os obstáculos. A cena teria muito mais impacto, no entanto, se o diretor usasse com maior esmero a profundidade de campo (e não só no final da sequência) para mostrar a extensão do congestionamento e da respectiva coreografia.

Até pensei que esse ato de rebeldia cênica reservaria ali uma crítica ao individualismo daquela sociedade, como fizera Cortázar no seu conto “A Autoestrada do Sul”. Mas logo somos apresentados aos desejos dos personagens principais (Sebastian e Mia), expressos em sonhos individuais e típicos daquela cidade.

E o filme de Chazelle (do ótimo “Whiplash”, de 2013) vai adicionando graça e leveza, em números musicais irregulares (só me lembro de uma música que eu seria capaz de cantarolar), a uma história até certo ponto rasa, que só ganha contornos “dramáticos” no seu terceiro ato.

O clima de leveza ajuda na compreensão do sucesso do filme e do carinho que muitos sentem por ele. Vivemos uma época de desesperança, e o desígnio escapista de Hollywood funciona perfeitamente aqui, numa homenagem correta aos musicais estadunidenses dos anos 30, 40 e 50, que cumpriam exatamente esse papel.

Uma contradição inquietante: o filme celebra a diversidade cultural da sociedade americana, expressa no personagem Sebastian, que ama Jazz e venera os seus grandes mestres, quase todos negros. No entanto, num filme que tenciona celebrar a riqueza da diversidade cultural estadunidense, os negros de “LaLaLand” são coadjuvantes esquecíveis.

Gosling e Stone são graciosos, e mesmo sem demonstrar grandes habilidades na dança, convencem mesmo pelo carisma e entrosamento.

No entanto, o filme é mais um exercício virtuose de um diretor jovem e muito talentoso (cuidado com a marra, Chazelle) do que qualquer outra coisa.

Seu filme propõe uma viagem escapista, fugindo de um mundo marcado pela assunção da extrema-direita, da desesperança e da incerteza. Se a plateia topar a viagem, acompanhando as aventuras e desventuras de dois jovens “brancos, lindos e sexys” (citando as palavras de Loach sobre o cinema americano), a diversão será certa…

O Martírio da Classe Operária em “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach

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Daniel Blake (Dabe Johns), o típico herói da classe operária dos filmes de Loach

O último filme do combativo Ken LoachEu, Daniel Blake” é um grito político e social que o diretor britânico realiza com sensibilidade e urgência.

O estilo narrativo de Loach é simples, formal, sem arroubos técnicos. Seu óbvio interesse é contar uma história simples e poderosa, que desenvolve com costumeira eficiência. Dos seus filmes emana a ideia clara de superioridade moral da classe trabalhadora. Seus personagens são tenros, falhos, honestos e, fundamentalmente, solidários. Acima de tudo, humanos…

Para atingir os propósitos dos seus filmes, Loach dirige seus atores de forma espontânea, conseguindo interpretações realistas e naturais. Sua câmera é respeitosamente distante da ação, em planos abertos e quase sempre com luz natural, o que acentua o tom documental da ação.

No seu cadinho de referências fervilha muito mais o humanismo neorrealista de Rossellini e De Sica do que as experimentações estéticas dos jovens franceses da “Novelle Vague”. Por isso sua trajetória é tão singular, mesmo comparando-o com outros cineastas importantes da “British New Wave”, como Lindsay Anderson, Nicolas Roeg, Ken Russel e John Boorman.

Em seu “Eu, Daniel Blake” o diretor vai direto ao ponto. Fiel ao seu estilo, narra com econômica precisão o drama de um homem, Daniel (interpretado com emoção e carinho pelo ótimo Dave Johns), um doente recém-enfartado que se vê, progressivamente, preso nas entranhas da burocracia do departamento de previdência, impedindo-o de receber uma pensão enquanto aguarda ser liberado para o trabalho pelo médico indicado pelo estado.

O drama kafkiano vivido por Daniel consiste em receber recomendações distintas da previdência e dos médicos. Enquanto os primeiros atestam que ele não receberá a pensão por estar apto ao trabalho, os segundos recomendam repouso. No caminho de penitência do protagonista o inventário de ataques sofridos pela classe trabalhadora nos últimos anos: terceirização e precarização do trabalho, políticas de redução do gasto social, a desumanização tecnocrática do serviço público, o aposentado eleito como vilão do equilíbrio orçamentário…

A solidariedade e altivez moral da classe trabalhadora é onipresente no filme. Daniel é realmente querido e desperta atenção e preocupação dos ex-Colegas de trabalho, do jovem vizinho sonhador e que comercializa tênis pirateados da China e até da funcionária da previdência, cada vez mais sensibilizada ao presenciar as humilhações do personagem.

Daniel também abraça a jovem Katie (Hayley Squires) e seus filhos pequenos, que passam por dificuldades, em parte ocasionadas pela mesma insensibilidade administrativa do estado. A gerente da agência de previdência e serviços sociais tem a dureza de um “Javert”, no seu rigor (e insensibilidade) profissional.

A sequência no centro de distribuição de alimentos para pessoas carentes é, certamente, das mais dilacerantes da história do cinema. O estilo narrativo e a direção de atores de Loach ajudam na composição da cena onde Katie avança contra uma lata de alimentos em conserva por estar esfomeada. Poucas vezes a humilhação social foi encenada de uma forma tão dura. Seu realismo e a certeza da reprodução de dramas parecidos na vida real acentuam a dor e a tristeza da cena.

O filme se torna uma experiência angustiante ao acompanhar a sucessão de problemas e impedimentos legais que submetem os protagonistas, onde não existe solução à vista. O progressivo estrangulamento financeiro os joga no desespero e na humilhação.

Loach ensaia a tentativa de revolta. O Personagem Daniel, num determinado momento, provoca as autoridades ao pichar, na parede da agência da previdência, o seu protesto. Ganha a atenção do público, o que sugere uma virada naquela história. Talvez fosse verdade se o filme estivesse nas mãos de realizadores sequiosos por saídas fáceis e convencionais, bem ao gosto do realismo romântico fechado de Hollywood. Para Loach e seu roteirista, Paul Laverty, impera a cinzenta realidade dos dias atuais. Daniel é liberado após ser ameaçado de prisão pela autoridade policial e afunda na depressão.

O gosto agridoce encharca nossas bocas e consciências. O grito de Loach é a denúncia fílmica que só alguém como ele poderia levar a cabo.

O incômodo vem da naturalização dessa violência, que condena grande parte da população para a marginalidade social, pura e simples. Como alertou Piketty no seu livro “Capital do Século XXI”, essa voracidade plutocrática contra direitos sociais empurrará as sociedades industriais para níveis inéditos de concentração de renda, além de condenar a crença na democracia como valor universal.

O desfecho da história, no 3º ato do filme, é particularmente doloroso, revelando um ceticismo cortante do seu diretor.

O último filme de Loach mostra a necessidade urgente dessas histórias serem contadas.

Uma lista irregular e incompleta contendo 28 filmes sobre música e músicos

No dia 17 de dezembro comemora-se o aniversário do compositor Ludwig van Beethoven, o gênio rebelde do romantismo que transformou o artista em herói e eixo central de sua arte.

Existem filmes importantes sobre o músico. Num outro post procurarei escrever sobre eles e o fascínio que a figura do compositor alemão exerce sobre a cultura popular, e por conseguinte o cinema.

Mas, além da “deixa” da data e do personagem supracitado, é impressionante a lista de músicos mortos em 2016. Vai de Bowie a Leonard Cohen. Isso me motivou relembrar os grandes filmes sobre a música e músicos em especial.

Músicos são personagens fascinantes. Sua arte expressa, talvez como nenhuma outra, as tensões, valores e sentimentos de uma época.  Ela ativa nossos humores e emoções com alarmante rapidez. Ela é acessível e ágil, e por isso mesmo usada pelas gentes exploradas para o seu grito de rebeldia.

A música é sempre uma rica fonte de temas e personagens, e o cinema se apropria desse universo para entregar cinebiografias, discussões estéticas sobre a arte, lutas sociais e, sobretudo, apresentar e discutir estilos e filosofias de vida, quase sempre intensas e rebeldes.

Porque poucas coisas definem mais nossa personalidade e relação com a vida do que a Música que escutamos.

Aqui vai uma lista de 28 filmes obrigatórios sobre o universo musical (Pretendo, em breve, aumentá-la para 40):

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Tom Hulce, como Mozart. Cada take de “Amadeus” é um quadro. E nunca o texto foi tão belo para descrever a música no cinema
  • Amadeus, de Milos Forman (EUA-1984): Nunca o cinema foi tão poético ao falar sobre a música. E nada melhor do que a inocência lírica e inovadora da música de Mozart. Direção de arte inesquecível, sob a batuta segura e inspirada de Forman. E, de quebra, um antológico estudo moral sobre a ambição e a inveja.
  • Bird, de Clint Eastwood (EUA-1987): Estudo de personagem sobre o gênio do Sax Charlie Parker. A genialidade e as contradições do músico estão todas ali. O filme revela o talento desconcertante de Forest Whitaker, além de ser a primeira grande obra de Clint.
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A América Profunda é retratada no microcosmos da Música Country pela lente de Altman
  • Nashville, de Robert Altman (EUA – 1975): O mergulho de Altman no universo da música country, exalando sarcasmo e melancolia através de personagens tristes e perdidos em uma américa decadente e amoral. A música aqui é desejada como antídoto onírico para o terror da realidade. Obrigatório.
  • Todas as Manhãs do Mundo, de Alain Corneau (França – 1991): Belíssimo retrato da música no início do século 17, através da relação entre dois gênios do barroco francês: Marin Marais (Depardieu) e o seu mestre, o recluso e misterioso Sainte-Colombe. O filme de Corneau é um tratado sobre a vocação transcendental da música (e da arte, como um todo). A trilha sonora é de Jordi Savall, monstro da Viola da Gamba (instrumento que antecedeu o Violoncelo).
  • Pink Floyd – The Wall, de Alan Parker (EUA e Inglaterra – 1982): O Rock operístico do Pink Floyd é retratado pelo apuro visual de Alan Parker. A união artística resultante influencia toda a arte de vídeo-clips por anos e anos. Além de apresentar um hino de rebeldia contra as envelhecidas tecnocracias do mundo.
Nelson Freire é um pianista reservado
Nelson Freire, maravilhoso documentário sobre o grande pianista brasileiro de João Moreira Salles
  • Nelson Freire, de João Moreira Salles (Brasil – 2003): Documentário maravilhoso de Moreira Salles sobre um gênio Brasileiro, o grande pianista Nelson Freire. A câmera do diretor vai entrando no universo do músico, acompanhando-o em ensaios, na visita aos amigos, em conversas aparentemente descontraídas, ou mesmo dirigindo. A visão simples e sublime de artista, sem afetações superficiais e desnecessárias. Obrigatório!
  • Sid e Nancy, de Alex Cox (Inglaterra – 1986): O filme cobre os últimos meses da vida do ídolo do Punk-Rock Sid Vicious e sua amante, Nancy. Filme é um importante painel do universo musical inglês do final da década de 70, contestador e marcadamente político. Interessante observar a interpretação intensa de Gary Oldman, que se especializaria em interpretar personagens furiosos e histriônicos, em especial na primeira fase de sua carreira.
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A Itália dividida e radicalizada é retratada como uma Orquestra rompida em “Ensaio de Orquestra”, o mais político filme de Fellini
  • Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini (Itália – 1978): O filme mais político de Fellini, onde, ao seu estilo onírico, faz a câmera correr por entre membros de uma orquestra cindida que perde, progressivamente, a capacidade (e a vocação) coletiva. Fábula política sobre a própria sociedade Italiana, que vivia naqueles tempos um perigoso processo de radicalização política.
  • À Volta da Meia Noite, de Bertrand Tavernier (EUA e França – 1986): Tocante história de uma improvável amizade entre a Lenda do Jazz Dexter Gordon, vivendo num autoexílio em Paris, e um jovem amante de sua música. Um filme sobre a solidão da arte e do músico como figura trágica, que a despeito do seu gênio não escapa dos ranços sociais de praxe, como o racismo.
  • What Happened, Miss Simone?, de Liz Garbus (EUA – 2015): Arrebatador documentário sobre a lenda Nina Simone, sua militância política contra o racismo e o preço (social, artístico e psíquico) que ela é obrigada a pagar ao se insurgir contra a opressão em seu país de origem. Simone foi uma musicista genial, combinando jazz e Bach de forma inventiva e singular.
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A música como obsessão e espaço de poder no brilhante “Wiplash”
  • Wiplash – nos limites, de Damien Chazelle (EUA – 2014): O filme de Chazelle reúne todos os cânones temáticos buscados pelo cinema para retratar os músicos: agressivos, obcecados, geniais…E o duelo que se estabelece entre o professor Fletcher (assustadoramente interpretado por J.K.summons) e o aluno brilhante Andrew (Miles Teller) é simplesmente antológico. O ato final subverte o desfecho convencional da trama e mergulha o público numa lógica de estranha cumplicidade entre os personagens. Inesquecível.
  • Encontro com Vênus, de István Szabó (França – 1991): Deliciosa comédia com pitadas dramáticas de Szabó, que faz sua câmera acompanhar uma montagem excêntrica da ópera Tannhauser, de Wagner, pela Ópera de Paris. Divas caprichosas, esgotamentos psíquicos e artísticos do regente, empresários aflitos, músicos que ameaçam uma greve. O diretor não esconde seu amor pelos personagens e pela ópera nesse filme delicioso.
  • A encruzilhada, de Walter Hill (EUA – 1986): Um dos filmes mais especiais dos anos 80, o jovem clássico de Water Hill flerta com o fantástico para contar a história de um jovem estudante de música clássica, amante de Blues, que procura saber se existe, de fato, a 30ª música do lendário Robert Johnson, que segundo a lenda, vendeu sua alma ao diabo. Um Road-movie clássico, onde a dinâmica entre os personagens Eugene (Ralph Macchio), o jovem estudante, e o amigo de Johnson, Willie Brown (Joe Seneca), é a grande força do filme. Destaque para o duelo de guitarras no final filme, entre Eugene e o…diabo, interpretado pelo grande Steve Vai.
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A música como Linguagem possível num mundo violento e cinza em “O Piano”, de Jane Campion
  • O Piano, de Jane Campion (Nova Zelândia – 1993): Sensível filme de Campion, sobre uma mulher surda que é enviada para um lugar remoto da Nova Zelândia do século 19 para se casar com um estranho. Sua forma de expressão é através de um piano de calda. Um filme que investe no conceito de “música como linguagem”, com rara beleza e sensibilidade. Holly Hunter vencer (merecidamente) o Oscar por sua interpretação.
  • O Grande amor de Beethoven, de Abel Gance (França – 1936): Um Gance mais comportado se volta para a vida de Beethoven, seguindo as passagens mais conhecidas do gênio alemão: sua progressiva surdez e solidão pastoral, os amores não correspondidos e a rebeldia social e artística. Gance filma Beethoven como um Herói Romântico e trágico, ainda que o filme seja tímido ao retratar a personalidade conflituosa e combativa do músico.
  • Fitzcarraldo, de Werner Herzog (Alemanha – 1982): Herzog perseguiu, durante a primeira fase de sua carreira, personagens obsessivos, como ele próprio. Fitzcarraldo, um irlandês perdido na Amazônia, atraído pelo “boom” da indústria da borracha, tem o sonho de construir um teatro em Iquitos para que ele possa receber o Tenor Caruso. Interpretação alucinada de Klaus Kinski.
  • Quase Famosos, de Cameron Crowe (EUA – 2000): Comédia dramática com toques autobiográficos de Crowe (o diretor, ainda adolescente, cobriu uma turnê do Led Zeppelin). O filme é uma jornada carinhosa ao universo das bandas de Rock, com seus músicos personalistas e infantilizados pela fama, groupies e viagens lisérgicas.
  • Eroica, de Simon Cellan Jones (Inglaterra – 2003): um instigante e pequeno filme da BBC que recria o que teria sido a primeira audição da 3º sinfonia de Beethoven (em 9 de junho de 1804) dedicada originalmente para Bonaparte, a convite do seu mecenas, o príncipe Lobkowitz. A sinfonia é o primeiro verdadeiro rompante criativo do gênio alemão, radicalizando a estrutura sinfônica clássica e, nas palavras de Haydn, “elegendo o artista ao posto de herói de sua própria música”. O filme discute as tensões entre as classes sociais após a revolução Francesa, a postura desafiadora de Beethoven que enxergava o vento republicano como definitivo, além de jogar luz sobre a sinfonia e seus recursos melódicos e estruturais, em todos os seus 4 maravilhosos movimentos.
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Val Kilmer “possuído” por Jim Morrison, na interpretação de sua vida em “The Doors”, de Oliver Stone
  • The Doors, de Oliver Stone (EUA – 1991): Jim Morrison é o típico herói de Stone, que dedicou sua filmografia a investigar a “tragédia americana”, ou seja, o esgotamento progressivo dos ventos democráticos e libertários num país fundado sob esses mitos. E o filme tem essa intenção de painel histórico  de um Estados Unidos em efervescência política e cultural. O irascível Morrison (numa interpretação assustadora de Val Kilmer) é o gênio total que se esgota na América individualista e infantilizada. O arco dramático clássico de ascensão e queda de um dos mais icônicos músicos da sua geração.
  • 32 curtas Metragens sobre Glenn Gould, de François Girard (Canadá – 1993): Estudo de personagem sobre o gênio do piano, o canadense Glenn Gould. A progressiva solidão e excentricidade do músico é retratada através de relatos de pessoas que conviveram com Gould, além de retratos ficcionais interpretados por Colm Feroe. E conforme o filme avança, vai se formando um retrato fílmico e muito respeitoso do músico que revolucionou a interpretação pianística, em especial Bach.
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A Divertida homenagem de Zemeckis aos fãs dos Beatles, em “Febre de Juventude”
  • Febre de Juventude, de Robert Zemeckis (EUA – 1978): Divertida Estreia de Zemeckis onde ele entrega uma tocante homenagem aos fãs dos Beatles. O filme narra a aventura de 6 jovens, fãs da banda, que fazem de tudo para chegar perto dos seus ídolos, durante o famoso show realizado no programa de Ed Sullivan, na primeira visita dos Beatles aos EUA.
  • Farinelli, de Gérard Corbiau (França e Itália – 1994): O filme retrata o auge do uso da voz dos Castrati (garotos castrados ainda na infância, proporcionando assim o atingimento de agudos inimagináveis em adultos), por volta das primeiros anos do século 17. Cinebiografia do maior dos castratis, Carlo Broschi, cuja voz foi o sonho de compositores como Haendel. O filme discute os limites morais da arte, ainda que o forte seja a reconstituição de época e o drama pessoal de Broschi, que por sua condição era considerado quase como um objeto pelos seus contemporâneos.
  • The Wonders – Tudo por um sonho, de Tom Hanks (EUA – 1996): Primeiro filme dirigido por Tom Hanks, o filme é uma carinhosa homenagem às muitas bandas de Rock que aparecem no cenário musical americano, inspiradas pelo estilo e musicalidade do fenômeno da “Beatlemania”. Hanks dirige com leveza surpreendente, o filme estabelece rapidamente empatia com os eu público.
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A tocante história do atormentado pianista David Helfgott, numa interpretação inesquecível de Geoffrey Rush
  • Shine – Brilhante, de Scott Hicks (Ausstrália – 1996): Tocante cinebiografia do talentoso pianista David Helfgott, que projetou o ator Geoffrey Rush para o estrelato. Típica jornada do artista atormentado pelo pai castrador e que sofre um colapso nervoso após desafiar o concerto Nº3 de Rachmaninoff. O arco dramático do filme entrega a redenção do personagem, já no 3º ato do longa. Narrativa convencional, mas bem dirigida. E o trabalho dos atores leva o filme nas costas.
  • A Lenda do Pianista do Mar, de Giuseppe Tornatore (Itália – 1998): O filme mais ambicioso e operístico de Tornatore, o diretor mais influenciado por Fellini no cinema italiano. O lirismo melancólico e o clima onírico do filme estão nos planos elaborados e na belíssima trilha do mestre Ennio Morricone. Um homem se criou num navio de cruzeiro durante as primeiras décadas do século XX, e se expressa através do piano, que domina (de forma autodidata) como poucos no mundo.
  • Alta Fidelidade, de Stephen Frears (EUA – 2000): Homenagem de Frears ao universo da música pop e de como a música se estabelece no imaginário das pessoas como marco ou referência para situações e acontecimentos de suas músicas. Extraordinária direção de atores, onde brilha particularmente Cusack.
  • A Escola do Rock, de Richard Linklater (EUA – 2003): O filme que lança Jack Black ao estrelato, dirigido pelo cultuado Linklater. Mais uma homenagem ao pop e o rock em especial, onde o diretor brinca com os maiores estereótipos do universo do rock de forma respeitosa e cativante.
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Beethoven como herói irascível e sofredor do Romantismo em “Minha Amada Imortal”, de Bernard Rose
  • Minha Amada Imortal, de Bernard Rose (EUA – 1994): A direção de Rose é pesada, atraída pelo senso estético do exagero dramático, o que para os histrionismos de Gary Oldman dos anos 90 foi um prato cheio. Seu Beethoven é um ser furioso e intenso, que grita e ama mais do que suas biografias indicam. Ainda assim o filme possui lindas e inspiradas passagens, como aquele em que sua amante descobre a surdez do músico.

Stone e a busca de Redenção para a Tragédia Americana

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“Snowden”, de Oliver Stone, é seu o melhor filme em muito tempo

Fazia tempo que eu não me empolgava com um filme de Oliver Stone, até assistir seu Snowden” (2016), que trata do já famoso analista de dados da CIA, Edward Joseph Snowden, e sua corajosa decisão de denunciar, através de jornalistas combativos e independentes, as ações do monstruoso sistema de vigilância global da NSA e a virtual quebra de privacidade de basicamente toda a comunicação de voz e dados de pessoas, empresas e governos do mundo!!! Sim, do mundo…

O filme de Stone é surpreendentemente sóbrio, para um realizador caracterizado por uma frenética narrativa, de cortes rápidos, zooms e toda sorte de maneirismos. E, devidamente contido nas suas experimentações estéticas, foca na condução competente de uma história poderosa sobre um jovem brilhante e autodidata, que movido por um idealismo patriótico (e inocente, acrescentaria), ingressa nas forças de segurança do país, sensibilizado pelo 11/09, disposto a dar a vida para defende-lo. Inicialmente no exército, onde não possui o vigor físico necessário para a vida de soldado, Snowden encontra na CIA (e demais aparatos de segurança) o local ideal para dar vazão ao seu talento com computadores, programação e análise de dados.

O filme narra esses saltos na vida do personagem de forma econômica e fluída. E a interpretação de Joseph Gordon-Levitt é brilhante, desde a caracterização da voz até os trejeitos físicos de Snowden, traduzindo a racionalidade e a timidez do personagem de forma admirável. Recomendo o excelente documentário Citzenfour (2014), de Laura Poitras. O filme de Stone dialoga e respeita, admiravelmente, o documentário de Poitras, retratando com fidelidade os diálogos entre o jovem analista e os jornalistas, escolhidos a dedo (dentre eles o Bravo Glenn Greenwald, que mora no Brasil e que, inclusive, denunciou o golpe sofrido por Dilma).

A história é um prato cheio para Stone, obcecado pela investigação da Tragédia Americana, ou seja, os caminhos tomados pelo gigante do Norte (em especial da sua tecnocracia) e a sua acelerada e progressiva distância das expectativas e promessas que constituem os mitos nacionais estadunidenses, de terra prometida da democracia e esperança.

De fato, Stone acreditou nesses mitos. Como alguém nascido e crescido nesse sistema de crenças, ele experimentou as grandes contradições morais do discurso épico da civilização americana. E até lutou numa guerra (a do Vietnã), provavelmente tomado por esse patriotismo onipresente.

Como cineasta, é inegável a força e coesão de sua obra. Podemos discutir seus filmes, e a oscilação natural de alguém com uma vasta cinematografia. No entanto, ele é incansável na investigação e na denúncia ao estabelecimento militar-político-financeiro estadunidense, sua frieza corrupta e tecnocrática, verdadeira antítese do mito clássico americano.

O “drama” de Stone, homem progressista e liberal, se revela na estrutura narrativa de vários de sus filmes mais importantes. É importante discutir o padrão bem definido em vária de suas tramas, que emula a sua própria jornada, de soldado numa guerra tipicamente imperial a um artista incomodado com os rumos do seu pais.

Esse padrão revela personagens que despertam do modelo mental no qual estão submetidos. Num segundo momento, são tomados por uma fúria contestadora. Entre a desilusão e o despertar de consciência, desenvolve-se o arco dramático de personagens icônicos da cinematografia de Stone, verdadeiros Alter Egos do cineasta, como o soldado Chris Taylor (Charlie Shenn) de “Platoon (1986), o iludido Bud Fox (novamente Charlie Sheen) de “Wall Street (1987) e o ativista Ron Kovic (Tom Cruise) de “Nascido em 4 de julho(1989). O inocente e idealista Edward Joseph Snowden junta-se, portanto, à galeria de personagens onde, cada um ao seu jeito, contam um pouco da trajetória do próprio cineasta, que dedicou praticamente toda sua cinematografia na denúncia dos delírios sociais e imperiais estadunidense, uma sociedade que, sob suas ácidas lentes, transformou-se numa nação de exageros consumistas e psíquicos. Do conservadorismo extremado em “Talk Radio” (1988), passando pelo asfixiante mercado financeiro de “Wall Street” (1987), ou mesmo sua sequência, em 2010, até a espetacularização da mídia (retratada de forma alucinada em “Assassinos por Natureza” de 1994) e os atos imperiais estadunidenses, de interferência em países estrangeiros, como Salvador (1985), “Platoon” (1986) e “Nascido em 4 de julho”(1989).

Por isso, ao assistir “Snowden”, que repito, é o filme mais sóbrio de Stone em anos, me lembrei de um de seus projetos mais combatidos e detratados pela crítica: “Alexandre”, de 2004.

Foi o filme mais caro de Stone (algo como US$ 150 milhões). Criticou-se o elenco estrelar (Hoopkinks, Farell, Jolie, Leto e Kilmer, dentre outros), suas interpretações, a duração do filme, a narrativa entrecortada de flashbacks, a estética particular de Stone e até a homossexualidade de Alexandre retratada no filme.

Pouco se notou, à época, que aquele filme era o vórtex fílmico de Stone, onde todos os outros convergiam. Era a leitura política do cineasta, através do uso de um personagem clássico e épico, suficientemente rico em camadas, para que, dessa forma, pudesse discutir seu próprio pais, os Estados Unidos da América.

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Stone dirigindo Colin Farell no set de “Alexander”: o filme concebido por Stone para seu testamento político

Alexandre, enquanto general e líder de um império em expansão, incorporou as nações conquistadas, seus códigos e ritos, incorporando-as ao modo de vida de grego. Essa expansão militar, travestida de campanha civilizatória helênica, para subjugar e converter os bárbaros ao modo civilizado (e grego), transformou-se numa experiência rica e singular. Sem dúvida alguma, Alexandre influenciou (e muito) o mundo antigo. Os Romanos o idolatravam. Alexandre, fundamentalmente, marchou por uma ideia; um mudo livre da ignorância e submetido (de bom grado) ao civilizado mundo grego.

A tragédia americana, segundo Stone, é esse potencial desperdiçado, de uma nação de imigrantes, do novo mundo, enriquecida e dinamizada pela convergência de povos e culturas, destinada à expansão do mundo livre, que se converte, aos poucos, num império imperfeito e liderado por uma tecnocracia fria, e por vezes, ignóbil (daí sua obsessão por presidentes americanos, como nos filmes Nixxon, de 1995, e W., de 2008).

Portanto, munido dessa ambição, Stone lançou-se na aventura do seu filme mais complexo, sua visão geopolítica particular através de um épico intenso e nada óbvio, mesmo considerando o tradicional arco dramático de uma cinebiografia.

Eu defendo (e muito) “Alexandre” contra seus detratores. Adoro a trilha sonora de Vangelis, que soube capturar o tom épico e intimista do personagem. A fotografia de Rodrigo Prieto é também digna de nota, com suas grandes tomadas épicas em campo aberto, em especial nas grandes (e bem construídas) sequências de batalhas. E eu até defendo as interpretações exageradas de Farell ou Jolie.

Com “Snowden”, o velho cineasta volta em forma para fazer aquilo que faz de melhor: mergulhar nas entranhas do império, denunciar suas mazelas e procurar, por fim, sua redenção moral.