Em Roma (2018), o recorte trágico e doce das memórias de Cuarón

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“Roma” (2018) de Afonso Cuarón, é o filme mais belo e contundente que eu assisti em 2018.

É um projeto muito pessoal do afamado diretor, que dirige, assina a fotografia e o roteiro do filme.

O filme é um resgate da memória de Cuarón, onde ele nos apresenta o México do anos 70 e sua democracia de fachada (cartazes do PRI – Partido Revolucionário Institucional – que governou o país por mais de 70 anos aparecem em vários momentos do filme).

Através dos olhos de Cleo (Yalitza Aparicio, numa interpretação contida, minimalista e absolutamente tocante), somos introduzidos ao universo da alta classe média mexicana dos anos 70. Nada diferente dos nossos anos 70. A mesma estrutura social que define abertamente privilegiados e a ralé, o mesmo comportamento alucinado, quase irresponsável, da classe média alienada (toda a sequência da fazenda lembra muito a “Regra do Jogo”, de Renoir), o mesmo ambiente que exalava uma falsa normalidade, enquanto para além do asfalto, o país afundava na miséria e na violência…

É um filme pensando meticulosamente para nos fazer voltar no tempo: da linda fotografia em P&B, à câmera de Cuarón, que se desloca sempre à esquerda ou a direita do seu eixo, em planos precisos, quase meticulosos. Também é deslumbrante a reconstituição de época; Cuarón sabe construir ambientes elaborados e conduzir o espectador por eles como ninguém no cinema atual. Nesse sentido, o México conservado na memória do diretor é tão fantástico como o espaço que ele nos mostra em “Gravidade” (2014).

Pena, Pena, Pena que o filme foi produzido para ser exibido em TVs e telas de computador. Toda sua concepção é magicamente pensada para ser cinema, da melhor qualidade.

Toda a beleza trágica da América Latina está nos olhos de Cleo. E com ela, o filme mais belo e poderoso de 2018.

Salve Cuarón…

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O Brasil primitivo, sincrético e endemoniado de “A Mata Negra” (2018), de Rodrigo Aragão

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Os atores Francisco Gapar (José) e Clarissa Pinheiro (Maria) | Fotos still/making-of foram feitas por Pedro Medeiros.

Com o filme “A Mata Negra” (2018), Rodrigo Aragão eleva o cinema de horror brasileiro, definitivamente, para outro patamar.

Como lembrou muito bem o ator Francisco Gaspar, em sua breve fala durante a primeira apresentação do filme, no 13º festival de cinema latino-americano de São Paulo, o cinema do nosso grande Zé Mojica – o Zé do Caixão – estava lá, pairando sobre todos nós, como grande inspiração. De fato, a criatividade radical e caótica do cinema de Mojica foi um farol para toda e qualquer incursão pelo cinema de gênero feito no país. É bom lembrar que o cinema brasileiro sempre orbitou por eixos criativos e temáticos sempre muito instáveis, e a nossa condição de subdesenvolvimento econômico e social (para usar uma expressão típica do último século) atrasou, por conseguinte, todo o nosso potencial industrial, ainda que o nosso cinema seja reconhecido internacionalmente como uma cinematografia importante, em especial pela sua mensagem política e crítica da própria condição social brasileira.

É bem verdade que as comédias esteticamente comprometidas com a linguagem televisiva (chamadas também de “globochancadas”) sempre foram bem recebidas pelo público. Mas nem sempre outros gêneros receberam a mesma acolhida.

É nesse contexto que chega o novo filme de Rodrigo Aragão, ainda que primeiramente aos festivais. Mas que seja um tour breve, já que o filme tem grande vocação comercial.

O filme acompanha as desventuras de Clara (Carol Aragão, filha do diretor, numa admirável interpretação física), garota que vive quase isolada com o seu pai adotivo num casebre miserável. Sua vida aparentemente bucólica, ainda que cheio de restrições, muda quando ela encontra um moribundo na estrada, que lhe entrega um saco de moedas de ouro, fazendo antes que ela prometa destruir o Livro perdido de Cipriano, cheio de magia negra, para que a sua alma possa enfim encontrar sossego. O filme convida o espectador, a partir daí, para uma verdadeira montanha-russa gore, que vai abrindo várias tramas periféricas, como a do pastor evangélico Francisco das Graças (Jackson Antunes) ou do Granjeiro José (composto pelo grande Francisco Gaspar, cujo carisma vai galvanizando sua cada vez maior identificação com o cinema de horror).

Na breve fala que fez ao público, Rodrigo Aragão disse que “A Mata…” diferia na narrativa em comparação aos seus projetos anteriores. “Não tem tanto sangue”, advertiu o diretor, entre sorrisos maliciosos da equipe e do público. De fato, “A Mata…” tem nos seus dois primeiros atos um desenvolvimento mais estruturado que os filmes anteriores. Como uma ópera Mozartiana, ele vai adicionando personagens e situações (um promissor namorado para Clara, bandidos, evangélicos liderados por um pastor fanático, um granjeiro e sua família), sem, contundo, deixar o filme cair no desinteresse e na confusão narrativa, muito por conta da extraordinária capacidade que Aragão tem em construir ambientes fantásticos, nebulosos no seu horror mais explícito, porém temperados de humor corrosivo.

Até que, conforme avança o segundo ato, as linhas abertas da história começam a ser fechadas pelo roteiro (do próprio Aragão) e a explosão de Sangue, vísceras e encarnações diabólicas, costuradas com a criatividade explosiva e enérgica do diretor, fazem o filme acelerar freneticamente no seu terceiro Ato. É quando o cineasta entrega as sequências mais elaboradas de toda sua carreira, repletas de efeitos práticos bastantes convincentes, com uma câmera ágil e uma fotografia muito competente, que captura a noite da selva escura de forma assustadora e convincente.

Outro ponto que merece a atenção é o desenho de produção do filme, que acerta ao estabelecer um universo atemporal e geograficamente indeterminado, flertando com um Brasil profundo e mitológico, que se revela nas armas de fogo usadas no filme, quase irreais no seu desenho, na vestimenta das pessoas, nas crenças dos personagens, na espiritualidade sincrética e radical daquelas pessoas…

Repleto de citações e homenagens que vão de Zé do Caixão a Sam Raimi (vi muito de “Noite Alucinante / Evil Dead II” no filme), o cineasta usa sua cesta de referências fílmicas sem abrir mão de um estilo próprio e profundamente brasileiro. Aliás, seu filme exala brasilidade (todos os seus filmes, na verdade), seja pela sua floresta primitiva, pelo sincretismo religioso, pela realidade que combina e distorce os mundos espirituais e concretos, pelos personagens e situações tipicamente brasileiros, na sua essência mais brutal e lúdica.

E com “A Mata…”, o cineasta Rodrigo Aragão dá largada para o lance mais ambicioso de sua carreira, investindo na expansão do seu universo mitológico de um Brasil primitivo e assolado de espíritos e demônios, lançando-se na produção do seu filme seguinte, “O Cemitério das Almas Perdidas”, um prequel de “A Mata…”com um orçamento inédito, o que garantirá uma escala fílmica maior e plena de potencialidades, elevando a escala apresentada em sua trilogia “ecológica de horror” – “Mangue Negro (2008)”, “A Noite do Chupa Cabras (2011)” e “Mar Negro (2013)”.

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O Cineasta Rodrigo Aragão dirige os atores Francisco Gaspar e Clarissa Pinheiro no Set de “A Mata Negra” | Fotos still/making-of foram feitas por Pedro Medeiros.

O seu cinema não encontra similaridade na atualidade. Possui um frescor anárquico bastante brasileiro, ao passo que dialoga com as grandes referências estéticas do gênero. E assim como o atual  cinema escandinavo de fantasia e horror chama atenção (filmes como Dead Snow/ 2009, Troll Hunter/ 2010 e Rare Exports/2010) dos aficionados, abusando das raízes históricas e folclóricas daquela parte do mundo, o universo de Rodrigo Aragão tem potencial (e força) para causar o mesmo impacto visual e temático desses filmes.

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Em “Z…”, o retrato trágico dos homens vitorianos

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O belo filme “Z: A cidade proibida” (2017), de James Gray, fez pouco barulho quando estreou, vítima provável da infantilização crônica do público e da ditadura dos filmes de super-heróis, que atualmente monopolizam o circuito comercial de exibição.

Uma pena, já que o filme é um drama histórico dos melhores, retratando a vida extraordinária do coronel Percival Fawcett, explorador britânico desaparecido nos anos 20, enquanto procurava os vestígios de uma civilização avançada no coração da selva amazônica brasileira.

O filme de Gray investiga as ambições e motivos de Fawcett, que arrisca tudo em busca de glória e boas posições (e rendimentos) dentro da máquina administrativa do Império Britânico.

Contudo, conforme vai amadurecendo, sobrevivendo às duríssimas expedições amazônicas e à primeira guerra mundial (que serviu como oficial, onde foi gravemente ferido), ele vai humanizando sua percepção dos povos que conhecia, colocando-se contrário às interpretações pré-definidas da lendária Academia de Geografia Real, que julgava como inferiores os povos originários da America.

Me surpreendeu a atuação de Charlie Hunnam como Fawcett. Ele consegue imprimir o romantismo tardio do personagem, esmagado por uma época que se fechava, progressivamente, para as “expedições civilizatórias”, muito em voga durante a era vitoriana, até a eclosão da primeira Grande Guerra. Também surpreende a maturidade da interpretação de Robert Pattinson como Costin, o grande companheiro de viagens de Fawcett.

Apesar da fotografia belíssima de Darius Khondji, o filme de Gray é, sobretudo, sobre os seus personagens. Mesmo com alguns planos grandiosos, o tom do filme é intimista. A câmera está quase sempre perto dos seus personagens, uma forma eficiente de retratar a mata densa e fechada, cenário de várias importantes sequências do filme.

O “inferno verde”, descrito por Euclides da Cunha na sua viagem ao alto Purus, está lá. A viagem não é o tormento existencial de “Aguirre”, de W. Herzog. Ela serve para mostrar a força de carácter dos personagens. A direção é correta, segura, clássica…O diretor sempre pensa no cenário ideal para a tragédia daqueles homens.

Um tipo de filme que cada vez mais parece estar condenado, seja pelos seus propósitos e temas.

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Lembra muito um outro filme, também pouco lembrado, do final dos anos 90: “Montanhas da Lua” (1988), de Bob Rafelson, sobre os incríveis Richard Francis Burton e John Speke, os primeiros europeus a chegarem na foz do rio Nilo, nos meados do século XIX.

Outro grande filme, de um diretor irregular, que retrata a era vitoriana, a sede de glórias de um império que se espalhava para mais de 1/4 do globo, e que reproduzia toda sorte de interpretações equivocadas, muitas vezes racistas e eurocêntricas, sobre o mundo e todos que neles abitavam.

Uma época que produziu um determinado tipo de homem que não existe mais, fundamentalmente pelas transformações sociais e econômicas que o mundo sofreu nos últimos 120 anos. Homens que incorporavam um desejo irrefreável pelo cenário geográfico e humano, dotados de sincero desejo civilizatório, ainda que com os instrumentos teóricos (muitas vezes preconceituosos) datados e questionáveis, próprios a época vitoriana.

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Richard Francis Burton: um Homem Extraordinário

Sobre “Montanhas da Lua”, desejo escrever algo mais estruturado em breve. Muito pelo seu personagem principal (Burton), um homem fascinante (dentre os seus muitos feitos, tradutor dos “Lusíadas” para o inglês).

A Revolução de 1917 para além de Eisenstein: O épico REDS

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Aproveitando o centésimo aniversário da revolução soviética, revisitei o épico “Reds” (1981), escrito, produzido e dirigido por Warren Beatty, então um dos homens mais poderosos de Hollywood.

O roteiro descreve os últimos anos da vida de John Reed, autor do célebre livro “Os 10 dias que abalaram o Mundo”, sobre a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917. Livro provavelmente mais conhecido fora do que dentro dos EUA, seu país de origem. O filme preocupa-se em recriar a atmosfera dos intelectuais estadunidenses de esquerda da época, como o poeta e autor teatral Eugene O’Neill (interpretado por Jack Nicholson), todos pertencentes ao círculo de amizades de Reed.

O filme também investe no relacionamento entre Reed e sua companheira Louise Bryant (Diane Keaton em plena forma), artista plástica e escritora estadunidense, e nos dilemas vividos pelos dois, “presos” num relacionamento tipicamente convencional, estabelecendo um choque com suas visões políticas e comportamentais.

Mesmo compreendendo a necessidade de estabelecer uma tensão romântica para atender a demanda do público médio, Beatty e Keaton formam um belo par nas telas, e a dinâmica entre eles é perfeita.

Impressiona mesmo é compreender o que significou levantar as condições materiais e artísticas necessárias para levar esse épico de quase 195 minutos, sobre um jornalista radical, fundador do partido comunista dos EUA, participante ativo dos primeiros momentos da revolução Bolchevique, em plena era Reagan, notória pelo seu grande conservadorismo político e comportamental. Aliás, na era Reagan, a paranoia anticomunista ganha novo fôlego, influenciado, inclusive, grande parte da produção de Hollywood naquela década. Para conseguir produzir o filme, Warren Beatty usou toda a sua influência e poder, dentro de Hollywood, para conseguir levar a cabo um projeto tão estranho (e suspeito) aos olhos estadunidenses.

O filme, mesmo crítico do totalitarismo soviético, já presente nos primeiros anos da revolução, critica o capitalismo (e a própria democracia ocidental) como talvez poucos filmes estadunidenses (antes e mesmo depois de “Reds”). E, de quebra, tem toda uma sequência dedicada a Internacional Socialista, escutada em vários momentos do Longa.

O pensamento radical de Reed é tratado com respeito e altivez, ainda que a expressão facial de Beatty ajude na construção de uma certa inocência do jornalista, que é ressaltada pelo filme após seus conflitos com os burocratas do Partido Bolchevique.

Do mais, “Reds” se apresenta como o tipo produto cinematográfico dos anos 80, dos chamados filmes “sérios” e “oscarisáveis” de então: longo (mais de três horas de duração), com requintada reconstituição de época e tom épico.

Destaca-se a fotografia de Vittorio Storaro e seus grandes e lindos planos abertos, próprios de um filme com essas características. A edição, assinada por Dede Allen também chama atenção, com cortes inteligentes e bem construídos, que tornam a narrativa sempre interessante e sedutora, ainda que o primeiro ato possa ser “acusado” de longo em demasia (quando o filme procura descrever a personalidade público e privada de Reed, além dos amigos pertencentes ao círculo de intelectuais).

Fazendo uso do testemunho de pessoas que conheceram Reed e Louise, com opiniões críticas e favoráveis ao papel histórico do casal, o filme ganha em veracidade, ainda que nem sempre os testemunhos forneçam informações relevantes para a apercepção do público sobre os personagens, estendendo, talvez com algum excesso, a duração do filme.

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Beatty e Storaro no set de “Reds”

Mesmo assim, o filme não perde sua força. De quebra, mostra uma impressionante direção de Warren Beatty, adicionando emoção ao seu épico, bebendo na fonte de mestres do gênero, como David Lean.  Ganhou o Oscar de Direção em 1981, com merecimento.

A Tecnologia como Religião e o fim da humanidade em “Blade Runner 2049”

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O gênio Einstein escreveu, certa vez, que “Se tornou assustadoramente óbvia que a nossa tecnologia tenha excedido nossa humanidade”. Tanto o clássico “Blade Runner” (1982), dirigido por Ridley Scott, como a sequência “Blade Runner 2049″ (2017), levada a cabo por Denis Villeneuve, orbitam em torno dessa sentença, definindo o eixo moral de ambos os filmes.

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O visual arrebatador do primeiro “Blade Runner” define a assinatura visual do novo filme

Mesmo longo (2 horas e 47 minutos de projeção), “B.D. 2049” não me cansou. O diretor é respeitoso e inteligente ao expandir o universo do filme original. E se a sequência não tem o mesmo impacto do primeiro filme (cujo desenho de produção influenciou o cinema de ficção científica para todo sempre), aprofunda muito mais a discussão sob a destruição da humanidade, em pró de um mundo consumido pela hiperindustrialização, da completa e absoluta hegemonia das grandes organizações (as únicas figuras públicas mostradas nesse futuro – cada vez menos distópico – são policiais), dos limites éticos da ciência e dos direitos existenciais de seres que pensam, e sobretudo, sentem…

O filme percorre a contramão do postulado de Nietzsche para o “Homem do Futuro”, quase que negando-o, pois enquanto o filósofo alemão entendia o progresso material, científico e filosófico do homem como a liberdade da metafísica, os replicantes, conscientes de sua complexidade, procuram a “alma” em suas naturezas sintéticas para se sentirem humanos.

Como já visto em filmes recentes como “Elysium” (2013) de Neill Blomkamp, a terra torna-se um inferno em seu pesadelo ambiental. O filme só flerta com o tema, mas percebe-se que a elite planetária já se mandou daquele ambiente faz tempo.

O filme também aprofunda as referências bíblicas (presentes também no filme de 1982), ao proporcionar um “milagre” muito importante para a trama, mudando o destino de todo um povo (os Replicantes), escravo na sua maioria. Além disso, a onipresente chuva, dominante em toda a paisagem de LA, pode também ser encarada como uma espécie de dilúvio, que castiga a cidade dominada pela desumanidade e consumo desenfreado.

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Niander Wallace (Jared Leto), aquele que enxerga a Tecnologia como religião

Um outro elemento que é melhor desenvolvido no filme é a tecnologia, tratada quase como algo metafísico, quase religioso. O personagem Niander Wallace (Jared Leto), mesmo sendo pouco desenvolvido, comporta-se como um Deus maquiavélico em relação “aos seus anjos”, os replicantes. Até a composição do personagem, sempre vestido em túnicas negras, lembra a postura de um padre ameaçador, diferente do “nerd” Tyrell (Joe Turkel) do primeiro filme.

A evolução tecnológica radical, sobretudo a inteligência artificial, ganha ares fantasmagóricos na aparição dos hologramas, e a personagem Joi (Ana de Armas) oferece algumas das passagens mais humanas do longa. A consciência que se expande e prescinde do corpo. A relação dela – o holograma Joi – e o replicante K (Ryan Gosling) oferece as passagens mais plenas de “humanidade” do filme. Além disso, ressalta a relação entre a tecnologia e a metafísica.

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Hologramas humanos, demasiadamente humanos

Harrison Ford faz outra entrada triunfal (assim como “Star War – episódio 7”) e sua presença dá novo fôlego ao filme.

Ryan Gosling está ok. Sua expressão distante empresta credibilidade para o seu papel no filme. Mesmo assim, participa de uma cena tocante, que homenageia o filme de Scott primorosamente, estabelecendo uma rima narrativa (em relação ao primeiro filme) muito bem sacada. Com direito a mesma, mesmíssima trilha de Vangelis, conduzida respeitosamente por Hans Zimmer. Aliás, respeito é certamente uma das grandes preocupações do filme. Ressaltar, ampliar, expandir o universo criado pela equipe de Ridley Scott.

O filme é longo, mas nunca moroso. Deve ser interpretado e sentido, através de algumas das composições visuais mais arrebatadoras do cinema contemporâneo. E de quebra, nos faz pensar…

 

 

 

A crueldade divina em “Mãe”

O filme “Mãe” de Daren Aronofsky (2017) é uma crítica aos valores cristãos e à crueldade de um Deus que se nutre do amor de seus súditos, sendo incapaz de amá-los verdadeiramente em troca. Nem o sofrimento, nem o caos que a obsessão de seus fiéis provoca no mundo ao redor são suficientes para Ele aplacar a sua ânsia por mais adoração.  Certamente, nada melhor que a figura repugnante do célebre, nestes anos em que se inspira e expira mídia, para representar a mais poderosa de todas as celebridades e aberrações já produzidas: o Deus que não ama.

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A criação deste diretor apresenta um amplo espectro simbólico, deixando margens para diversas interpretações. A trama percorre o suspense psicológico, com toques de terror, resultando em um drama apocalíptico no final. Não é possível permanecer passivo a ela e, talvez, os mais sensíveis venham a questionar como eliminar esta figura divina imortal e sádica. Talvez a resposta esteja em direcionarmos nossas mentes e sentimentos para uma reflexão interior, promovendo questionamentos como o porquê sermos devotos a uma criatura tão horrenda? Seriamos nós seres sedentos por amor, mas incapazes de amar verdadeiramente em troca? Teria o nosso individualismo chegado a tal ponto que acabou por nos destruir como um todo? A impressão que Aronofsky deixa é esta: quando se trata de amor deve-se dar e querer algo em troca SIM, caso contrário não passa de exploração e escravidão!

Com a interpretação impecável de atores renomados somos levados à casa de um famoso poeta (Javier Bardem), personagem que incorpora os traços divinos comentados acima, e sua companheira a Mãe (Jennifer Lawrence), em uma clara indicação a fonte que gera, nutre e provem a vida: o amor. O poeta parece estar enfrentando uma fase de bloqueio criativo, e a Mãe faz de tudo para auxiliá-lo a ultrapassar este período de conturbação interna, reconstruindo a sua casa que fora destruída por um incêndio anteriormente. Assim, usa da sua sensibilidade para sentir a energia de cada cômodo e dar o reparo que cada um necessita. Um trabalho de devoção total. Desta forma, também é possível descrever o relacionamento deles, já que ela não o questiona, apenas deseja que tudo esteja em harmonia para que ele trabalhe em paz.

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Aqui se pode recorrer a outros tipos de interpretação como o ciclo da vida, constituído de altos e baixos, e de momentos de construção e desconstrução. Contudo, o tema principal do enredo ainda sugere a tese do Deus cruel. À exemplo está a visita inesperada de um médico (Ed Harris), que está morrendo e revela-se um fã do poeta. Sem ao menos conhece-lo, ou perguntar a opinião de sua companheira, ele o hospeda em sua casa. A paixão do médico pelo poeta faz este inclusive aceitar com que ele traga seus problemas pessoais, sua esposa (Michelle Pfeifer) e seus filhos para aquele espaço íntimo e seguro que a Mãe criou para eles.

 

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A esposa do médico é um personagem importante, que provoca um ponto de virada na trama. Ela, diferentemente, da Mãe, tem o controle sobre os seus e um certo poder de manipulação, podendo inclusive persuadir o próprio poeta/Deus, em alguns momentos, usando do egocentrismo deste, a fazer o que ela deseja. Esta figura feminina vai provocar e questionar a Mãe sobre o real amor que o poeta sente por ela. Afinal, a verdadeira razão de uma mulher bonita existir é despertar o desejo sexual do parceiro, no intuito de gerar filhos. A Mãe é instigada pelas indiretas desta personagem e acaba incitando o poeta a finalmente ter relações com ela e engravidá-la. O nascimento da criança impulsiona o poder criador do autor, resultando em uma outra obra prima; mas, também será a prova da falta de amor deste, levando ao fim tráfico da Mãe. Novos fãs chegam à casa do casal para trocar algumas palavras com o Criador, estar próximo dele e tocá-lo. A casa que também tinha sofrido danos físicos com os convidados anteriores e começava a cicatrizar as feridas, volta a ser atacada, depredada e por fim destruída.

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Durante as cenas, que são uma referência simbólica ao apocalipse, a Mãe começa a sentir as dores do parto, e o poeta, até então concentrado em nutrir a paixão que seus súditos dedicavam a ele, volta-se finalmente para ajudar a Mãe. No entanto, ele entrega o recém-nascido aos fãs e deixa que eles o sacrifiquem. Esta é uma possível analogia ao nascimento de Jesus e ao pai Deus que gera um filho para sofrer nas mãos dos humanos, apenas para que estes possam futuramente saberem da sua existência e adorá-lo. A Mãe finalmente compreende que o Deus não a ama e destrói tudo, menos o amor verdadeiro que ela sente por ele. Até isso o poeta vai utilizar para criar uma nova Mãe, fazendo prevalecer e continuar o seu prazer em ser adorado. Com efeitos especiais que auxiliam a  fixar a atenção nos diversos atos do enredo, o filme engloba ainda vários temas e questões que podem ser analisados pela sua perspectiva, tornando-o não apenas necessário, mas também, possivelmente, uma verdadeira obra cinematográfica que retrata uma época  e constará na lista de clássicos imprescindíveis do futuro.

 

O revanchismo bárbaro em “Terra de Minas”

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O tema da segunda guerra continua ocupando lugar relevante na psique mundial, sobretudo europeia. A memória do conflito resiste. Em especial na Europa, onde novas fronteiras foram desenhadas, povos foram deslocados, ódios foram deflagrados e depois contidos.

E é nesse contexto que o Drama de Guerra Dinamarquês “Terra de Minas” (Under sandet), de 2016, foi selecionado para o Oscar de melhor filme estrangeiro na edição daquele ano, além da boa participação em festivais e mostras mundo afora.

No Brasil teve estreia discreta.

O filme é um drama dirigido com segurança por Martin Zandvliet (que também assina o roteiro), que joga luz sobre atos ocorridos no ápice do sentimento antigermânico que imperava na Europa nos meses e anos após o fim da segunda grande guerra, quando o mundo ainda contabilizava as devastadoras perdas humanas e materiais provocadas pelo conflito. Em vários lugares do continente, milhões de minas terrestres foram instaladas pelos exércitos alemães durante a guerra e, com o fim do conflito, precisaram ser removidas urgentemente.

 

O arriscado trabalho foi realizado, ao menos na Dinamarca, por soldados alemães, “recrutados” entre os milhares de prisioneiros de guerra. O filme de Zandvliet resgata a memória desses prisioneiros, na sua grande maioria, garotos recém-saídos da adolescência, recrutados nos meses que precederam o fim da Alemanha Nazista.

Na história, acompanhamos o Sargento Carl Rasmussen (Roland Møller), endurecido pelos anos de domínio alemão, responsável por comandar um grupo de prisioneiros alemães encarregados da remoção das minas terrestre de uma praia na costa dinamarquesa. O personagem de Møller garante certa complexidade ao duro sargento, evoluindo do ódio aos alemães ao despertar, gradativo, da sua sensibilização para com a condição humana daqueles garotos. Mesmo com um arco dramático previsível, a direção dos atores carrega a ação sem sentimentalismos.

O Roteiro é preciso e econômico, e a direção sóbria faz do filme um importante relato histórico de uma passagem inglória da história Dinamarquesa, reconhecida por sua postura civilizada e altiva durante a dominação nazista, ao recusar-se a participar da sanha assassina da solução final nazista.

O Filme Zandvliet nos convida a refletir, portanto, sobre a força corrosiva do ódio. E como a redenção vem, normalmente, quando humanizamos o inimigo.

Um bom filme, que nos mostra como o tema da segunda guerra reserva muitas histórias que ainda precisam ser reveladas.