A Revolução de 1917 para além de Eisenstein: O épico REDS

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Aproveitando o centésimo aniversário da revolução soviética, revisitei o épico “Reds” (1981), escrito, produzido e dirigido por Warren Beatty, então um dos homens mais poderosos de Hollywood.

O roteiro descreve os últimos anos da vida de John Reed, autor do célebre livro “Os 10 dias que abalaram o Mundo”, sobre a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917. Livro provavelmente mais conhecido fora do que dentro dos EUA, seu país de origem. O filme preocupa-se em recriar a atmosfera dos intelectuais estadunidenses de esquerda da época, como o poeta e autor teatral Eugene O’Neill (interpretado por Jack Nicholson), todos pertencentes ao círculo de amizades de Reed.

O filme também investe no relacionamento entre Reed e sua companheira Louise Bryant (Diane Keaton em plena forma), artista plástica e escritora estadunidense, e nos dilemas vividos pelos dois, “presos” num relacionamento tipicamente convencional, estabelecendo um choque com suas visões políticas e comportamentais.

Mesmo compreendendo a necessidade de estabelecer uma tensão romântica para atender a demanda do público médio, Beatty e Keaton formam um belo par nas telas, e a dinâmica entre eles é perfeita.

Impressiona mesmo é compreender o que significou levantar as condições materiais e artísticas necessárias para levar esse épico de quase 195 minutos, sobre um jornalista radical, fundador do partido comunista dos EUA, participante ativo dos primeiros momentos da revolução Bolchevique, em plena era Reagan, notória pelo seu grande conservadorismo político e comportamental. Aliás, na era Reagan, a paranoia anticomunista ganha novo fôlego, influenciado, inclusive, grande parte da produção de Hollywood naquela década. Para conseguir produzir o filme, Warren Beatty usou toda a sua influência e poder, dentro de Hollywood, para conseguir levar a cabo um projeto tão estranho (e suspeito) aos olhos estadunidenses.

O filme, mesmo crítico do totalitarismo soviético, já presente nos primeiros anos da revolução, critica o capitalismo (e a própria democracia ocidental) como talvez poucos filmes estadunidenses (antes e mesmo depois de “Reds”). E, de quebra, tem toda uma sequência dedicada a Internacional Socialista, escutada em vários momentos do Longa.

O pensamento radical de Reed é tratado com respeito e altivez, ainda que a expressão facial de Beatty ajude na construção de uma certa inocência do jornalista, que é ressaltada pelo filme após seus conflitos com os burocratas do Partido Bolchevique.

Do mais, “Reds” se apresenta como o tipo produto cinematográfico dos anos 80, dos chamados filmes “sérios” e “oscarisáveis” de então: longo (mais de três horas de duração), com requintada reconstituição de época e tom épico.

Destaca-se a fotografia de Vittorio Storaro e seus grandes e lindos planos abertos, próprios de um filme com essas características. A edição, assinada por Dede Allen também chama atenção, com cortes inteligentes e bem construídos, que tornam a narrativa sempre interessante e sedutora, ainda que o primeiro ato possa ser “acusado” de longo em demasia (quando o filme procura descrever a personalidade público e privada de Reed, além dos amigos pertencentes ao círculo de intelectuais).

Fazendo uso do testemunho de pessoas que conheceram Reed e Louise, com opiniões críticas e favoráveis ao papel histórico do casal, o filme ganha em veracidade, ainda que nem sempre os testemunhos forneçam informações relevantes para a apercepção do público sobre os personagens, estendendo, talvez com algum excesso, a duração do filme.

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Beatty e Storaro no set de “Reds”

Mesmo assim, o filme não perde sua força. De quebra, mostra uma impressionante direção de Warren Beatty, adicionando emoção ao seu épico, bebendo na fonte de mestres do gênero, como David Lean.  Ganhou o Oscar de Direção em 1981, com merecimento.

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A Tecnologia como Religião e o fim da humanidade em “Blade Runner 2049”

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O gênio Einstein escreveu, certa vez, que “Se tornou assustadoramente óbvia que a nossa tecnologia tenha excedido nossa humanidade”. Tanto o clássico “Blade Runner” (1982), dirigido por Ridley Scott, como a sequência “Blade Runner 2049″ (2017), levada a cabo por Denis Villeneuve, orbitam em torno dessa sentença, definindo o eixo moral de ambos os filmes.

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O visual arrebatador do primeiro “Blade Runner” define a assinatura visual do novo filme

Mesmo longo (2 horas e 47 minutos de projeção), “B.D. 2049” não me cansou. O diretor é respeitoso e inteligente ao expandir o universo do filme original. E se a sequência não tem o mesmo impacto do primeiro filme (cujo desenho de produção influenciou o cinema de ficção científica para todo sempre), aprofunda muito mais a discussão sob a destruição da humanidade, em pró de um mundo consumido pela hiperindustrialização, da completa e absoluta hegemonia das grandes organizações (as únicas figuras públicas mostradas nesse futuro – cada vez menos distópico – são policiais), dos limites éticos da ciência e dos direitos existenciais de seres que pensam, e sobretudo, sentem…

O filme percorre a contramão do postulado de Nietzsche para o “Homem do Futuro”, quase que negando-o, pois enquanto o filósofo alemão entendia o progresso material, científico e filosófico do homem como a liberdade da metafísica, os replicantes, conscientes de sua complexidade, procuram a “alma” em suas naturezas sintéticas para se sentirem humanos.

Como já visto em filmes recentes como “Elysium” (2013) de Neill Blomkamp, a terra torna-se um inferno em seu pesadelo ambiental. O filme só flerta com o tema, mas percebe-se que a elite planetária já se mandou daquele ambiente faz tempo.

O filme também aprofunda as referências bíblicas (presentes também no filme de 1982), ao proporcionar um “milagre” muito importante para a trama, mudando o destino de todo um povo (os Replicantes), escravo na sua maioria. Além disso, a onipresente chuva, dominante em toda a paisagem de LA, pode também ser encarada como uma espécie de dilúvio, que castiga a cidade dominada pela desumanidade e consumo desenfreado.

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Niander Wallace (Jared Leto), aquele que enxerga a Tecnologia como religião

Um outro elemento que é melhor desenvolvido no filme é a tecnologia, tratada quase como algo metafísico, quase religioso. O personagem Niander Wallace (Jared Leto), mesmo sendo pouco desenvolvido, comporta-se como um Deus maquiavélico em relação “aos seus anjos”, os replicantes. Até a composição do personagem, sempre vestido em túnicas negras, lembra a postura de um padre ameaçador, diferente do “nerd” Tyrell (Joe Turkel) do primeiro filme.

A evolução tecnológica radical, sobretudo a inteligência artificial, ganha ares fantasmagóricos na aparição dos hologramas, e a personagem Joi (Ana de Armas) oferece algumas das passagens mais humanas do longa. A consciência que se expande e prescinde do corpo. A relação dela – o holograma Joi – e o replicante K (Ryan Gosling) oferece as passagens mais plenas de “humanidade” do filme. Além disso, ressalta a relação entre a tecnologia e a metafísica.

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Hologramas humanos, demasiadamente humanos

Harrison Ford faz outra entrada triunfal (assim como “Star War – episódio 7”) e sua presença dá novo fôlego ao filme.

Ryan Gosling está ok. Sua expressão distante empresta credibilidade para o seu papel no filme. Mesmo assim, participa de uma cena tocante, que homenageia o filme de Scott primorosamente, estabelecendo uma rima narrativa (em relação ao primeiro filme) muito bem sacada. Com direito a mesma, mesmíssima trilha de Vangelis, conduzida respeitosamente por Hans Zimmer. Aliás, respeito é certamente uma das grandes preocupações do filme. Ressaltar, ampliar, expandir o universo criado pela equipe de Ridley Scott.

O filme é longo, mas nunca moroso. Deve ser interpretado e sentido, através de algumas das composições visuais mais arrebatadoras do cinema contemporâneo. E de quebra, nos faz pensar…

 

 

 

A crueldade divina em “Mãe”

O filme “Mãe” de Daren Aronofsky (2017) é uma crítica aos valores cristãos e à crueldade de um Deus que se nutre do amor de seus súditos, sendo incapaz de amá-los verdadeiramente em troca. Nem o sofrimento, nem o caos que a obsessão de seus fiéis provoca no mundo ao redor são suficientes para Ele aplacar a sua ânsia por mais adoração.  Certamente, nada melhor que a figura repugnante do célebre, nestes anos em que se inspira e expira mídia, para representar a mais poderosa de todas as celebridades e aberrações já produzidas: o Deus que não ama.

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A criação deste diretor apresenta um amplo espectro simbólico, deixando margens para diversas interpretações. A trama percorre o suspense psicológico, com toques de terror, resultando em um drama apocalíptico no final. Não é possível permanecer passivo a ela e, talvez, os mais sensíveis venham a questionar como eliminar esta figura divina imortal e sádica. Talvez a resposta esteja em direcionarmos nossas mentes e sentimentos para uma reflexão interior, promovendo questionamentos como o porquê sermos devotos a uma criatura tão horrenda? Seriamos nós seres sedentos por amor, mas incapazes de amar verdadeiramente em troca? Teria o nosso individualismo chegado a tal ponto que acabou por nos destruir como um todo? A impressão que Aronofsky deixa é esta: quando se trata de amor deve-se dar e querer algo em troca SIM, caso contrário não passa de exploração e escravidão!

Com a interpretação impecável de atores renomados somos levados à casa de um famoso poeta (Javier Bardem), personagem que incorpora os traços divinos comentados acima, e sua companheira a Mãe (Jennifer Lawrence), em uma clara indicação a fonte que gera, nutre e provem a vida: o amor. O poeta parece estar enfrentando uma fase de bloqueio criativo, e a Mãe faz de tudo para auxiliá-lo a ultrapassar este período de conturbação interna, reconstruindo a sua casa que fora destruída por um incêndio anteriormente. Assim, usa da sua sensibilidade para sentir a energia de cada cômodo e dar o reparo que cada um necessita. Um trabalho de devoção total. Desta forma, também é possível descrever o relacionamento deles, já que ela não o questiona, apenas deseja que tudo esteja em harmonia para que ele trabalhe em paz.

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Aqui se pode recorrer a outros tipos de interpretação como o ciclo da vida, constituído de altos e baixos, e de momentos de construção e desconstrução. Contudo, o tema principal do enredo ainda sugere a tese do Deus cruel. À exemplo está a visita inesperada de um médico (Ed Harris), que está morrendo e revela-se um fã do poeta. Sem ao menos conhece-lo, ou perguntar a opinião de sua companheira, ele o hospeda em sua casa. A paixão do médico pelo poeta faz este inclusive aceitar com que ele traga seus problemas pessoais, sua esposa (Michelle Pfeifer) e seus filhos para aquele espaço íntimo e seguro que a Mãe criou para eles.

 

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A esposa do médico é um personagem importante, que provoca um ponto de virada na trama. Ela, diferentemente, da Mãe, tem o controle sobre os seus e um certo poder de manipulação, podendo inclusive persuadir o próprio poeta/Deus, em alguns momentos, usando do egocentrismo deste, a fazer o que ela deseja. Esta figura feminina vai provocar e questionar a Mãe sobre o real amor que o poeta sente por ela. Afinal, a verdadeira razão de uma mulher bonita existir é despertar o desejo sexual do parceiro, no intuito de gerar filhos. A Mãe é instigada pelas indiretas desta personagem e acaba incitando o poeta a finalmente ter relações com ela e engravidá-la. O nascimento da criança impulsiona o poder criador do autor, resultando em uma outra obra prima; mas, também será a prova da falta de amor deste, levando ao fim tráfico da Mãe. Novos fãs chegam à casa do casal para trocar algumas palavras com o Criador, estar próximo dele e tocá-lo. A casa que também tinha sofrido danos físicos com os convidados anteriores e começava a cicatrizar as feridas, volta a ser atacada, depredada e por fim destruída.

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Durante as cenas, que são uma referência simbólica ao apocalipse, a Mãe começa a sentir as dores do parto, e o poeta, até então concentrado em nutrir a paixão que seus súditos dedicavam a ele, volta-se finalmente para ajudar a Mãe. No entanto, ele entrega o recém-nascido aos fãs e deixa que eles o sacrifiquem. Esta é uma possível analogia ao nascimento de Jesus e ao pai Deus que gera um filho para sofrer nas mãos dos humanos, apenas para que estes possam futuramente saberem da sua existência e adorá-lo. A Mãe finalmente compreende que o Deus não a ama e destrói tudo, menos o amor verdadeiro que ela sente por ele. Até isso o poeta vai utilizar para criar uma nova Mãe, fazendo prevalecer e continuar o seu prazer em ser adorado. Com efeitos especiais que auxiliam a  fixar a atenção nos diversos atos do enredo, o filme engloba ainda vários temas e questões que podem ser analisados pela sua perspectiva, tornando-o não apenas necessário, mas também, possivelmente, uma verdadeira obra cinematográfica que retrata uma época  e constará na lista de clássicos imprescindíveis do futuro.

 

O revanchismo bárbaro em “Terra de Minas”

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O Drama de Guerra Dinamarquês “Terra de Minas” (Under sandet), de 2016, foi selecionado para o Oscar de melhor filme estrangeiro na última edição do prêmio, além de boa participação em festivais e mostras mundo afora.

No Brasil teve estreia discreta.

O filme é um drama dirigido com segurança por Martin Zandvliet (que também assina o roteiro), sobre um evento ocorrido na Europa do pós-guerra, quando o mundo ainda contabilizava as devastadoras perdas humanas e materiais provocadas pelo conflito. Em vários lugares do continente (em especial na Dinamarca), milhões de minas terrestres foram instaladas pelos exércitos alemães durante a guerra e, com o fim do conflito, precisaram ser removidas urgentemente.

O arriscado trabalho foi realizado, ao menos na Dinamarca, por soldados alemães, “recrutados” entre os milhares de prisioneiros de guerra. O filme de Zandvliet resgata a memória desses prisioneiros, na sua grande maioria, garotos recém saídos da adolescência, recrutados nos meses que precederam o fim da Alemanha Nazista.

Na história, acompanhamos o Sargento Carl Rasmussen (Roland Møller), revoltado pelos anos de domínio alemão, e responsável por comandar um grupo de soldados alemães responsáveis pela remoção das minas de uma praia. O personagem de Møller garante certa complexidade ao duro sargento, evoluindo do ódio aos alemães à sensibilização da condição humana daqueles garotos. Mesmo com um arco dramático previsível, a direção dos atores carrega a ação sem sentimentalismos.

O Roteiro é preciso e econômico, e a direção sóbria faz dele um filme importante por trazer a tona uma passagem inglória da história Dinamarquesa, reconhecida por sua postura civilizada e altiva durante a dominação nazista, recusando-se a participar da sanha assassina da solução final.

Conseguimos refletir, portanto, sobre a força corrosiva do ódio. E como a redenção vem, normalmente, quando humanizamos o inimigo.

Um bom filme. Parece que ainda existem muitas histórias sobre a II Guerra que merecem ser reveladas…

A Resistência Popular em “Era o Hotel Cambridge”

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Ontem (04 de setembro de 2017) corrigi uma falta vergonhosa da minha pretensa cinefilia, e assisti “Era o Hotel Cambridge” (2016), da Eliane Caffé.
O filme apresenta uma sucessão de personagens humanos, profundamente humanos, que resistem contra a opressão do estado e o descaso (acrecido do ódio dos últimos anos) da sociedade.
Acompanhamos um grupo que invadiu um prédio abandonado do centro, o antigo Hotel Cambridge. A organização das pessoas por meio da conscientização política emociona.
Os relatos dos refugiados (uma das grandes forças do filme) revela o absurdo de um país que os aceita institucionalmente (nas palavras de um dos refugiados, “para fazer bonito na ONU”) para depois persegui-los e privá-los de direitos e oportunidades.
Numa sequência pequena mas muito impactante, o espectador consegue ler as “opiniões” carregadas de ódio, deixadas pela malta raivosa das redes sociais, no blog criado para mostrar o cotidiano das ocupações.
É admirável o cuidado da diretora em não criar recursos narrativos (muitas vezes maniqueístas) para verbalizar a luta e a consciência dos ocupantes. Eles falam por si, expondo seus temores, preconceitos e esperanças. Outro feito do filme é a composição orgânica entre ficção e realidade, que atuam juntas para potencializar o vigor da história e de personagens tão carismáticos.
E tem o José Dumont, com o seu “Apolo”, uma espécie de “Glauber” popular, de furiosa criatividade e ímpeto. É fato:José Dumont é foda!!!
O filme é um contraponto (assim como o filme “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós) ao cinema conservador do mainstream brasileiro, que aposta na sede vingadora da classe média, através dos seus filmes sobre policiais e juízes justiceiros.
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“Nós somos mais fortes…Nós somos o Povo…”
Filmes são retratos da vida, das posições políticas, sociais e culturais em disputa na sociedade. O Filme de de Eliane Caffé está do lado daqueles que resistiram, e continuam resistindo. Nesse sentido, tem a força de um “Vinhas da Ira”, de John Ford. Quem não se lembra da matriarca, vagando com sua família pelo desolado meio-oeste americano pós-depressão de 1929? Ela diz, mais ou menos assim: “Mesmo contra tudo, nós sobreviveremos. Somos mais fortes e resistentes que eles. Nós somos o povo”…

A guerra como evento trágico em “Dunkirk”

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Na Guerra, todos são igualmente alvos incógnitos e descartáveis

Passados 72 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o conflito ainda faz a cabeça de cineastas e do público. Só no passado recente nos lembramos de filmes como “Stalingrado” (Rússia – 2013), “Terra de Minas” (Dinamarca – 2015), “O Filho do Saul” (Hungria – 2016) e “Até o último Homem” (EUA – 2016).

Dado que o presente é marcado pelo cinismo, pela dubiedade dos líderes, pelos sucessivos fracassos políticos em todos os espectros ideológicos, a Segunda Grande Guerra aparece, ainda, como o conflito moral que ocupa o imaginário do mundo, em especial no Ocidente.

E, exatamente no meio do impasse político e econômico representado pelo Brexit, o cineasta  Christopher Nolan lança seu épico sobre o conflito, “Dunkirk” (2017), atraindo contra si um certo tipo de crítica que, ao politizar seu filme, rotula-o como obra conservadora e anti-europeia.

O Evento histórico de Dunquerque foi fundamental para a continuação da Inglaterra na resistência ao nazismo. Ao mesmo tempo, significou uma derrota militar vergonhosa, expondo as fragilidades militares britânicas e consolidando a imagem de invulnerabilidade das forças armadas nazistas, até que estas fossem derrotadas nas batalhas de El-Alemein, em 1942, e principalmente, Stalingrado, em 1943.

O filme relata bem a relação dos Ingleses com o Mar, refúgio e fortaleza para a ilha que sempre temeu a Europa.

E Nolan traz sua maquinaria técnica para filmar o evento histórico, a não-batalha de Dunquerque, cidade do litoral Belga e refúgio para aproximadamente 400 mil soldados (entre Britânicos e Franceses), nos primeiros meses de 1940, durante a esmagadora Blitzkrieg alemã. Sua decisão de filmar uma derrota revela a conhecida predileção do diretor pela desesperança, presentes em vários dos seus filmes. Dramaticamente falando, é sempre instigante filmar o derrotado e sua altivez moral, até a sua conseguinte redenção, caminho escolhido pelo roteiro (de Nolan) para o fim do filme.

Portanto, o tema de “Dunirk” não significa um contraponto na carreira do seu Diretor, mas sim uma evolução temática, prova inconteste do seu poder e influência na indústria, onde os propósitos definidos por ele para a sua nova obra são bastante ambiciosos.  Desde a narrativa entrecortada, que estabelece a confusão da “Névoa da Guerra” como talvez nenhum outro filme até agora, até o superlativo trabalho de direção, tudo enche os olhos (e os sentidos) no novo filme de Nolan.

Muito se escreveu sobre a ausência de um eixo narrativo clássico para o filme, personagens bem construídos que pudéssemos investir emocionalmente na sua jornada, culpando o roteiro por essas falhas. Mas, mesmo reconhecendo que a Direção de Nolan sempre foi mais acabada que o seu texto, entendo que aqui o roteiro serve bem às intenções do Diretor, de criar uma imersão psicológica na guerra, nos fazendo sentir o horror de um ataque aéreo ou a angústia de estar preso no porão de um navio que afunda.

Uma guerra é o ato insano de matar jovens. Eles morrem desavisadamente, vítimas da própria inexperiência no ofício de matar. Acabam morrendo e, com isso, servem de exemplo para os que vivem. Morrem como moscas antes que saibamos seus nomes. No clássico de Samuel Fuller, Agonia e Glória (The Big Red One – 1980), um soldado explica porque um recruta é ignorado, maltratado mesmo, quando chega numa unidade militar qualquer durante a guerra: “para que não nos afeiçoemos a ele”. O filme de Nolan abre com essa lógica radical, quando um estampido surdo irrompe a cena (assistam em IMAX, apenas assistam). Um a um os jovens recrutas vão caindo. Não enxergamos os algozes, só corremos com aqueles garotos.

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“Atonement” (Desejo e Reparação), de 2007, dirigido por Joe Wright

Numa certa sequência, os soldados estacionados na praia (em estranha ordem, quase alienados, esperando um resgate distante, longe do caos mostrado no brilhante Travelling de “Atonement” – 2007, de Joe Wright) são atacados pelos temidos Stukas da Força aérea alemã. E assistimos uma sequência de pavor. O extraordinário desenho de som dá ares fantasmagóricos para os aviões e seus silvos de morte. Para onde correr? A mis-en-scène é meticulosamente construída e a experiência é das coisas mais aterradoras de que me lembro. A precisão histórica do filme, sempre observando o pavor psicológico de um ataque aéreo realizado por um bombardeiro de mergulho, é brilhantemente encenado. Lembremos que a Blitzkrieg era a inovação tática da Alemanha nazista, onde a cominação do emprego de muitas armas engajadas num mesmo teatro operacional provocava pânico e desolação. O ataque aéreo era a assinatura mais perversa dessa nova forma de guerra. Os Stukas representaram esse pavor, e “devemos” a ele os massacres de Guernica, Varsóvia e Amesterdã.

A câmera vai seguindo Tommy (era assim que os soldados ingleses eram chamados, desde as guerras napoleônicas), interpretado por um inexpressivo Fionn Whitehead. Sua inexpressividade e o seu faro para a sobrevivência (e para a tragédia) ocupam a maior parte da projeção.

A direção escolhe o aturdimento de sons e sensações às vísceras expostas de Spielberg e Gibson. A fria naturalidade da cena torna tudo mais cortante, porque a banalidade de morrer naquelas circunstâncias é a violência maior de uma guerra. Após o ataque, a soldadesca levanta, se organiza em suas estranhas filas, e espera…até o próximo ataque.

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“Saving Private Ryan” (Resgate do Soldado Ryan), de 1998, dirigido por Steven Spielberg

E aqui, mesmo estruturado em propósitos e estilos distintos, não é errado afirmar que não existiria “Dunkirk” sem “Saving Private Ryan” (O Resgate do Soladado Ryan), de 1998. A imersão psicológica exposta no desenho de som e nos sussurros da enigmática trilha sonora de Hans Zimmer, que nos assombra em todo o primeiro filme foi sim influenciado peta catarse de violência do segundo (em especial na assustadora sequência do dia D). Da mesma forma, a fotografia dessaturada de janusz kaminski (que influenciou toda a linguagem fílmica do gênero) encontra ressonância na proposta visual que Hoyte Van Hoytema concebe para o filme de Nolan.

Os saltos e voltas provocadas pela estrutura do roteiro causa, talvez intencionalmente, a sensação da desorientação provocada pela guerra, aquilo que Clausewitz chamou de “Névoa da Guerra”, expondo a mortal confusão do teatro militar. Entendendo essa lógica fica mais palatável a estrutura do filme, que divide o filme em três histórias distintas, na Terra, no Ar e no Mar (talvez aqui o diretor tenha sido influenciado pelo famoso discurso de Churchill, feito logo depois de Dunquerque, onde o líder britânico estabelece as regras simples da guerra dali por diante: eles resistiriam em todos os lugares, sempre…e nunca se renderiam), onde acabam se encontrando e interseccionando num determinado momento do filme.

Se o filme acompanha os soldados como pobres diabos desafortunados, escapando de ataques aéreos e naufrágios, confere aos pilotos o protagonismo das cenas mais conscientes do filme. Mesmo diante do caos e da confusão (ressaltadas pela edição que estrutura a narrativa em três eixos distintos), suas ações são governadas pela responsabilidade e senso de entrega. Novamente recorro a Churchill, onde, num discurso, disse sobre os pilotos da RAF: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. Pois é isso. Após Dunquerque, a Luftwaffe (força área alemã) partiu sedenta para destruir a capacidade industrial e militar dos Ingleses. Durante longos meses, a “Batalha da Inglaterra” foi travada nos frios espaços aéreos das cidades britânicas (majoritariamente Inglesas), entre jovens pilotos de ambos os lados. E ai, graças a obstinação da RAF, o país não caiu, assim como todo o ocidente. Nolan presta incontida homenagem aos homens da RAF, fotografando o Sptifire de Farrier (Tom Hardy, econômico até mesmo em função do papel que interpretava), em especial na sequência final, onde o piloto conduz heroicamente o avião vazio de combustível até o pouso na praia de Dunquerque. É o momento do gozo emocional, onde a trilha dissonante e onipresente de Hans Zimmer liberta-se das suas funções narrativas (chega a antecipar, com seu ruído, os ataques aéreos dos aviões alemães), ensaiando um motivo melódico; a fotografia de Hoytema torna-se mais quente do que qualquer outro momento do filme.

Por fim, toda a mis-en-scène trata a guerra como um evento trágico, quase como um efeito de perversidade da natureza. Não se menciona a palavra “Nazista” nem mesmo uma única vez. Não se enxergam alemães, mas somente as máquinas controladas por eles. Mesmo no final do filme, alguns poucos soldados num quadro desfocado são vistos. O filme não quer o apoio da simbologia maléfica do nazismo, o que não deixa de ser uma opção bastante interessante, que dá coerência narrativa e de propósitos à obra.

Essa ausência do discurso político deixa o filme de Nolan potencialmente acrítico, naquilo que nos acostumamos entender como mensagem antibelicista. No entanto, ao mostrar a guerra como uma sucessão de angústias e pavores psíquicos, onde a morte é uma consequência naturalizada e aceita, o diretor consegue imprimir, com a sua obra, uma experiência imersiva única, e por vezes apavorante, da guerra como tragédia humana, mesmo que, para isso, abra mão conscientemente da emoção e de personagens mais próximos do espectador para nos fazer entender que, numa guerra, só podemos protagonizar nossos medos e instintos de sobrevivência.

O Medo e a Paranoia da era Bush jr. no pequeno clássico “O Nevoeiro”

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O Medo e o Pânico são densos como a névoa

Talvez nenhum outro filme tenha retratado tão bem as paranoias e esquizofrenias da era Bush Júnior como o pequeno grande filme de Frank Darabont (que dirigiu e foi responsável pelo roteiro), “The Mist” (O Nevoeiro), de 2007, baseado num livro do escritor Stephen King. Uma época marcada pela desesperada vingança estadunidense após o 11/09, levando de roldão o equilíbrio da democracia naquele país e permitindo o progressivo desrespeito aos direitos humanos, em nome de uma subjetiva “Guerra ao Terror” que afetou, basicamente, o mundo inteiro.

O filme, de produção modesta (para os padrões estadunidenses), não foi um grande sucesso naquele ano, custando pouco mais de US$ 18 milhões e arrecadando US$ 25 milhões nos EUA. A audiência não achou palatável o tom cético do filme. Contudo, as locadoras e a crítica especializada souberam reconhecer o valor da obra, elevada ao status de “Cult” por apaixonados defensores. Eles provaram estar certos. O filme continua assustadoramente atual nas suas ambições políticas e narrativas.

A história evolui rapidamente, a partir de um estranho nevoeiro que toma conta de uma pequena cidade, trazendo com ela estranhas e mortais criaturas e forçando um grupo de sobreviventes a se entrincheirar num mercado local, sufocados pelas incertezas e, principalmente, diferenças entre aquelas pessoas e de como elas interpretam o estranho fenômeno.

O fantástico aqui é utilizado pelos roteiristas como uma oportunidade de mergulhar nas tensões e conflitos que assolam a sociedade estadunidense. E nesse aspecto ele apresenta momentos que estão entre os mais tensos do cinema comercial estadunidense no passado recente.  À medida que os fenômenos se tornam mais misteriosos e mortais, seu entendimento começa ser disputados por grupos que suspeitam da ação de “terroristas” até o fatalismo religioso do castigo divino. Destaca-se a assustadora personagem Mrs. Carmody (Marcia Gay Harden, na melhor atuação do filme), uma fanática religiosa que, ao proporcionar um discurso apocalíptico sobre os acontecimentos, se torna, de longe, a maior ameaça para as pessoas que tentam desesperadamente sobreviver.

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o Capitalismo Zumbi de “Dawn of the Dead”, de 1978, um clássico do gênio George Romero

A ação se passa quase que inteiramente nas dependências de um pequeno mercado, num dos símbolos da nossa civilização, e mesmo não sendo original no seu propósito (George Romero já fizera isso em seu clássico “Dawn of the Dead” – 1978), não deixa de ser interessante a ironia do roteiro.

O próprio nevoeiro funciona (na correta e angustiante fotografia de Rohn Schmidt) como admirável analogia do medo, por engolir a civilização e tudo que nela vive. Pior, limita a capacidade das pessoas em enxergar saídas e engendrar soluções para os problemas enfrentados.

O diretor Frank Darabont avança a trama de forma admirável, aproveitando-se do clima claustrofóbico para criar um ambiente de progressiva tensão. O tom da obra é eminentemente pessimista, seja pelo destino apontado pelo roteiro, seja pela tese que o filme desenvolve sobre a própria civilização, onde o homem encurralado e assustado costuma, normalmente, cair na tentação da violência caótica e desesperada. Somos bichos irascíveis e infantilizados, e isso se mostra claro quando as estruturas que suportam a vida social (o estado, notadamente) desaparecem. Destaca-se também a sensibilidade de Darabont para filmar o material original de Stephen King.como admirável analogia do medo, por engolir a civilização e tudo que vivi nela. Pior, limita a capacidade das pessoas enxergara saídas e engendrar soluções para os problemas enfrentados pelas pessoas.

Assustador pensar que o filme é mais atual do que nunca, ainda mais por conta da sucessão de atentados, em especial na Europa, ocorridos nos últimos 3 anos, com o reflexo político imediato: a assunção da estrema direita e do nacionalismo mais belicoso no mundo. Os medos irradiados por essa onda conservadora estão, todas elas, no filme de

Alguns filmes empalidecem com os anos. Outros melhoram a cada projeção. É o caso de “O Nevoeiro”.