O escapismo doce e virtuoso de “La La Land”

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O doce escapismo de Gosling e Stone…

O filme La La Land, do diretor Damien Chazelle, vem arrebatando opiniões apaixonadas no Brasil. O encantamento vem da lustrosa fotografia de Linus Sandgren (inspirada no filme de Jacques Demy, “Os Guarda-Chuvas do amor”), que investe numa paleta de cores vibrantes e quentes, destacando o clima e a luz da cidade, além da óbvia simpatia do casal de protagonistas: Ryan Gosling (Sebastian) e Emma Stone (Mia), distribuindo sorrisos, charme e simpatia…

Tematicamente, o filme me lembra um pouco o clima onírico de “Viver e Amar em Los Angeles (L.A. Story)”, de 1991, escrito, produzido e interpretado por Steve Martin, onde ele transforma congestionamentos, poluição, tardes ensolaradas e Hollywood (com seus sonhos e dramas) em um lugar mágico. Martin escreveu uma declaração de amor sincera para uma cidade acusada, normalmente, de fútil e imediatista, cortada por autopistas e enfartada por congestionamentos quase ininterruptos.

E Chazelle faz graça dessa imagem, numa abertura realmente impactante, onde as pessoas saem dos seus carros e começam a dançar, quase como protesto poético, contra o congestionamento em uma manhã qualquer. O Plano sequência é elaborado e a câmera mostra agilidade girando, se elevando e driblando os obstáculos. A cena teria muito mais impacto, no entanto, se o diretor usasse com maior esmero a profundidade de campo (e não só no final da sequência) para mostrar a extensão do congestionamento e da respectiva coreografia.

Até pensei que esse ato de rebeldia cênica reservaria ali uma crítica ao individualismo daquela sociedade, como fizera Cortázar no seu conto “A Autoestrada do Sul”. Mas logo somos apresentados aos desejos dos personagens principais (Sebastian e Mia), expressos em sonhos individuais e típicos daquela cidade.

E o filme de Chazelle (do ótimo “Whiplash”, de 2013) vai adicionando graça e leveza, em números musicais irregulares (só me lembro de uma música que eu seria capaz de cantarolar), a uma história até certo ponto rasa, que só ganha contornos “dramáticos” no seu terceiro ato.

O clima de leveza ajuda na compreensão do sucesso do filme e do carinho que muitos sentem por ele. Vivemos uma época de desesperança, e o desígnio escapista de Hollywood funciona perfeitamente aqui, numa homenagem correta aos musicais estadunidenses dos anos 30, 40 e 50, que cumpriam exatamente esse papel.

Uma contradição inquietante: o filme celebra a diversidade cultural da sociedade americana, expressa no personagem Sebastian, que ama Jazz e venera os seus grandes mestres, quase todos negros. No entanto, num filme que tenciona celebrar a riqueza da diversidade cultural estadunidense, os negros de “LaLaLand” são coadjuvantes esquecíveis.

Gosling e Stone são graciosos, e mesmo sem demonstrar grandes habilidades na dança, convencem mesmo pelo carisma e entrosamento.

No entanto, o filme é mais um exercício virtuose de um diretor jovem e muito talentoso (cuidado com a marra, Chazelle) do que qualquer outra coisa.

Seu filme propõe uma viagem escapista, fugindo de um mundo marcado pela assunção da extrema-direita, da desesperança e da incerteza. Se a plateia topar a viagem, acompanhando as aventuras e desventuras de dois jovens “brancos, lindos e sexys” (citando as palavras de Loach sobre o cinema americano), a diversão será certa…

O Martírio da Classe Operária em “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach

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Daniel Blake (Dabe Johns), o típico herói da classe operária dos filmes de Loach

O último filme do combativo Ken LoachEu, Daniel Blake” é um grito político e social que o diretor britânico realiza com sensibilidade e urgência.

O estilo narrativo de Loach é simples, formal, sem arroubos técnicos. Seu óbvio interesse é contar uma história simples e poderosa, que desenvolve com costumeira eficiência. Dos seus filmes emana a ideia clara de superioridade moral da classe trabalhadora. Seus personagens são tenros, falhos, honestos e, fundamentalmente, solidários. Acima de tudo, humanos…

Para atingir os propósitos dos seus filmes, Loach dirige seus atores de forma espontânea, conseguindo interpretações realistas e naturais. Sua câmera é respeitosamente distante da ação, em planos abertos e quase sempre com luz natural, o que acentua o tom documental da ação.

No seu cadinho de referências fervilha muito mais o humanismo neorrealista de Rossellini e De Sica do que as experimentações estéticas dos jovens franceses da “Novelle Vague”. Por isso sua trajetória é tão singular, mesmo comparando-o com outros cineastas importantes da “British New Wave”, como Lindsay Anderson, Nicolas Roeg, Ken Russel e John Boorman.

Em seu “Eu, Daniel Blake” o diretor vai direto ao ponto. Fiel ao seu estilo, narra com econômica precisão o drama de um homem, Daniel (interpretado com emoção e carinho pelo ótimo Dave Johns), um doente recém-enfartado que se vê, progressivamente, preso nas entranhas da burocracia do departamento de previdência, impedindo-o de receber uma pensão enquanto aguarda ser liberado para o trabalho pelo médico indicado pelo estado.

O drama kafkiano vivido por Daniel consiste em receber recomendações distintas da previdência e dos médicos. Enquanto os primeiros atestam que ele não receberá a pensão por estar apto ao trabalho, os segundos recomendam repouso. No caminho de penitência do protagonista o inventário de ataques sofridos pela classe trabalhadora nos últimos anos: terceirização e precarização do trabalho, políticas de redução do gasto social, a desumanização tecnocrática do serviço público, o aposentado eleito como vilão do equilíbrio orçamentário…

A solidariedade e altivez moral da classe trabalhadora é onipresente no filme. Daniel é realmente querido e desperta atenção e preocupação dos ex-Colegas de trabalho, do jovem vizinho sonhador e que comercializa tênis pirateados da China e até da funcionária da previdência, cada vez mais sensibilizada ao presenciar as humilhações do personagem.

Daniel também abraça a jovem Katie (Hayley Squires) e seus filhos pequenos, que passam por dificuldades, em parte ocasionadas pela mesma insensibilidade administrativa do estado. A gerente da agência de previdência e serviços sociais tem a dureza de um “Javert”, no seu rigor (e insensibilidade) profissional.

A sequência no centro de distribuição de alimentos para pessoas carentes é, certamente, das mais dilacerantes da história do cinema. O estilo narrativo e a direção de atores de Loach ajudam na composição da cena onde Katie avança contra uma lata de alimentos em conserva por estar esfomeada. Poucas vezes a humilhação social foi encenada de uma forma tão dura. Seu realismo e a certeza da reprodução de dramas parecidos na vida real acentuam a dor e a tristeza da cena.

O filme se torna uma experiência angustiante ao acompanhar a sucessão de problemas e impedimentos legais que submetem os protagonistas, onde não existe solução à vista. O progressivo estrangulamento financeiro os joga no desespero e na humilhação.

Loach ensaia a tentativa de revolta. O Personagem Daniel, num determinado momento, provoca as autoridades ao pichar, na parede da agência da previdência, o seu protesto. Ganha a atenção do público, o que sugere uma virada naquela história. Talvez fosse verdade se o filme estivesse nas mãos de realizadores sequiosos por saídas fáceis e convencionais, bem ao gosto do realismo romântico fechado de Hollywood. Para Loach e seu roteirista, Paul Laverty, impera a cinzenta realidade dos dias atuais. Daniel é liberado após ser ameaçado de prisão pela autoridade policial e afunda na depressão.

O gosto agridoce encharca nossas bocas e consciências. O grito de Loach é a denúncia fílmica que só alguém como ele poderia levar a cabo.

O incômodo vem da naturalização dessa violência, que condena grande parte da população para a marginalidade social, pura e simples. Como alertou Piketty no seu livro “Capital do Século XXI”, essa voracidade plutocrática contra direitos sociais empurrará as sociedades industriais para níveis inéditos de concentração de renda, além de condenar a crença na democracia como valor universal.

O desfecho da história, no 3º ato do filme, é particularmente doloroso, revelando um ceticismo cortante do seu diretor.

O último filme de Loach mostra a necessidade urgente dessas histórias serem contadas.

Uma lista irregular e incompleta contendo 28 filmes sobre música e músicos

No dia 17 de dezembro comemora-se o aniversário do compositor Ludwig van Beethoven, o gênio rebelde do romantismo que transformou o artista em herói e eixo central de sua arte.

Existem filmes importantes sobre o músico. Num outro post procurarei escrever sobre eles e o fascínio que a figura do compositor alemão exerce sobre a cultura popular, e por conseguinte o cinema.

Mas, além da “deixa” da data e do personagem supracitado, é impressionante a lista de músicos mortos em 2016. Vai de Bowie a Leonard Cohen. Isso me motivou relembrar os grandes filmes sobre a música e músicos em especial.

Músicos são personagens fascinantes. Sua arte expressa, talvez como nenhuma outra, as tensões, valores e sentimentos de uma época.  Ela ativa nossos humores e emoções com alarmante rapidez. Ela é acessível e ágil, e por isso mesmo usada pelas gentes exploradas para o seu grito de rebeldia.

A música é sempre uma rica fonte de temas e personagens, e o cinema se apropria desse universo para entregar cinebiografias, discussões estéticas sobre a arte, lutas sociais e, sobretudo, apresentar e discutir estilos e filosofias de vida, quase sempre intensas e rebeldes.

Porque poucas coisas definem mais nossa personalidade e relação com a vida do que a Música que escutamos.

Aqui vai uma lista de 28 filmes obrigatórios sobre o universo musical (Pretendo, em breve, aumentá-la para 40):

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Tom Hulce, como Mozart. Cada take de “Amadeus” é um quadro. E nunca o texto foi tão belo para descrever a música no cinema
  • Amadeus, de Milos Forman (EUA-1984): Nunca o cinema foi tão poético ao falar sobre a música. E nada melhor do que a inocência lírica e inovadora da música de Mozart. Direção de arte inesquecível, sob a batuta segura e inspirada de Forman. E, de quebra, um antológico estudo moral sobre a ambição e a inveja.
  • Bird, de Clint Eastwood (EUA-1987): Estudo de personagem sobre o gênio do Sax Charlie Parker. A genialidade e as contradições do músico estão todas ali. O filme revela o talento desconcertante de Forest Whitaker, além de ser a primeira grande obra de Clint.
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A América Profunda é retratada no microcosmos da Música Country pela lente de Altman
  • Nashville, de Robert Altman (EUA – 1975): O mergulho de Altman no universo da música country, exalando sarcasmo e melancolia através de personagens tristes e perdidos em uma américa decadente e amoral. A música aqui é desejada como antídoto onírico para o terror da realidade. Obrigatório.
  • Todas as Manhãs do Mundo, de Alain Corneau (França – 1991): Belíssimo retrato da música no início do século 17, através da relação entre dois gênios do barroco francês: Marin Marais (Depardieu) e o seu mestre, o recluso e misterioso Sainte-Colombe. O filme de Corneau é um tratado sobre a vocação transcendental da música (e da arte, como um todo). A trilha sonora é de Jordi Savall, monstro da Viola da Gamba (instrumento que antecedeu o Violoncelo).
  • Pink Floyd – The Wall, de Alan Parker (EUA e Inglaterra – 1982): O Rock operístico do Pink Floyd é retratado pelo apuro visual de Alan Parker. A união artística resultante influencia toda a arte de vídeo-clips por anos e anos. Além de apresentar um hino de rebeldia contra as envelhecidas tecnocracias do mundo.
Nelson Freire é um pianista reservado
Nelson Freire, maravilhoso documentário sobre o grande pianista brasileiro de João Moreira Salles
  • Nelson Freire, de João Moreira Salles (Brasil – 2003): Documentário maravilhoso de Moreira Salles sobre um gênio Brasileiro, o grande pianista Nelson Freire. A câmera do diretor vai entrando no universo do músico, acompanhando-o em ensaios, na visita aos amigos, em conversas aparentemente descontraídas, ou mesmo dirigindo. A visão simples e sublime de artista, sem afetações superficiais e desnecessárias. Obrigatório!
  • Sid e Nancy, de Alex Cox (Inglaterra – 1986): O filme cobre os últimos meses da vida do ídolo do Punk-Rock Sid Vicious e sua amante, Nancy. Filme é um importante painel do universo musical inglês do final da década de 70, contestador e marcadamente político. Interessante observar a interpretação intensa de Gary Oldman, que se especializaria em interpretar personagens furiosos e histriônicos, em especial na primeira fase de sua carreira.
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A Itália dividida e radicalizada é retratada como uma Orquestra rompida em “Ensaio de Orquestra”, o mais político filme de Fellini
  • Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini (Itália – 1978): O filme mais político de Fellini, onde, ao seu estilo onírico, faz a câmera correr por entre membros de uma orquestra cindida que perde, progressivamente, a capacidade (e a vocação) coletiva. Fábula política sobre a própria sociedade Italiana, que vivia naqueles tempos um perigoso processo de radicalização política.
  • À Volta da Meia Noite, de Bertrand Tavernier (EUA e França – 1986): Tocante história de uma improvável amizade entre a Lenda do Jazz Dexter Gordon, vivendo num autoexílio em Paris, e um jovem amante de sua música. Um filme sobre a solidão da arte e do músico como figura trágica, que a despeito do seu gênio não escapa dos ranços sociais de praxe, como o racismo.
  • What Happened, Miss Simone?, de Liz Garbus (EUA – 2015): Arrebatador documentário sobre a lenda Nina Simone, sua militância política contra o racismo e o preço (social, artístico e psíquico) que ela é obrigada a pagar ao se insurgir contra a opressão em seu país de origem. Simone foi uma musicista genial, combinando jazz e Bach de forma inventiva e singular.
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A música como obsessão e espaço de poder no brilhante “Wiplash”
  • Wiplash – nos limites, de Damien Chazelle (EUA – 2014): O filme de Chazelle reúne todos os cânones temáticos buscados pelo cinema para retratar os músicos: agressivos, obcecados, geniais…E o duelo que se estabelece entre o professor Fletcher (assustadoramente interpretado por J.K.summons) e o aluno brilhante Andrew (Miles Teller) é simplesmente antológico. O ato final subverte o desfecho convencional da trama e mergulha o público numa lógica de estranha cumplicidade entre os personagens. Inesquecível.
  • Encontro com Vênus, de István Szabó (França – 1991): Deliciosa comédia com pitadas dramáticas de Szabó, que faz sua câmera acompanhar uma montagem excêntrica da ópera Tannhauser, de Wagner, pela Ópera de Paris. Divas caprichosas, esgotamentos psíquicos e artísticos do regente, empresários aflitos, músicos que ameaçam uma greve. O diretor não esconde seu amor pelos personagens e pela ópera nesse filme delicioso.
  • A encruzilhada, de Walter Hill (EUA – 1986): Um dos filmes mais especiais dos anos 80, o jovem clássico de Water Hill flerta com o fantástico para contar a história de um jovem estudante de música clássica, amante de Blues, que procura saber se existe, de fato, a 30ª música do lendário Robert Johnson, que segundo a lenda, vendeu sua alma ao diabo. Um Road-movie clássico, onde a dinâmica entre os personagens Eugene (Ralph Macchio), o jovem estudante, e o amigo de Johnson, Willie Brown (Joe Seneca), é a grande força do filme. Destaque para o duelo de guitarras no final filme, entre Eugene e o…diabo, interpretado pelo grande Steve Vai.
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A música como Linguagem possível num mundo violento e cinza em “O Piano”, de Jane Campion
  • O Piano, de Jane Campion (Nova Zelândia – 1993): Sensível filme de Campion, sobre uma mulher surda que é enviada para um lugar remoto da Nova Zelândia do século 19 para se casar com um estranho. Sua forma de expressão é através de um piano de calda. Um filme que investe no conceito de “música como linguagem”, com rara beleza e sensibilidade. Holly Hunter vencer (merecidamente) o Oscar por sua interpretação.
  • O Grande amor de Beethoven, de Abel Gance (França – 1936): Um Gance mais comportado se volta para a vida de Beethoven, seguindo as passagens mais conhecidas do gênio alemão: sua progressiva surdez e solidão pastoral, os amores não correspondidos e a rebeldia social e artística. Gance filma Beethoven como um Herói Romântico e trágico, ainda que o filme seja tímido ao retratar a personalidade conflituosa e combativa do músico.
  • Fitzcarraldo, de Werner Herzog (Alemanha – 1982): Herzog perseguiu, durante a primeira fase de sua carreira, personagens obsessivos, como ele próprio. Fitzcarraldo, um irlandês perdido na Amazônia, atraído pelo “boom” da indústria da borracha, tem o sonho de construir um teatro em Iquitos para que ele possa receber o Tenor Caruso. Interpretação alucinada de Klaus Kinski.
  • Quase Famosos, de Cameron Crowe (EUA – 2000): Comédia dramática com toques autobiográficos de Crowe (o diretor, ainda adolescente, cobriu uma turnê do Led Zeppelin). O filme é uma jornada carinhosa ao universo das bandas de Rock, com seus músicos personalistas e infantilizados pela fama, groupies e viagens lisérgicas.
  • Eroica, de Simon Cellan Jones (Inglaterra – 2003): um instigante e pequeno filme da BBC que recria o que teria sido a primeira audição da 3º sinfonia de Beethoven (em 9 de junho de 1804) dedicada originalmente para Bonaparte, a convite do seu mecenas, o príncipe Lobkowitz. A sinfonia é o primeiro verdadeiro rompante criativo do gênio alemão, radicalizando a estrutura sinfônica clássica e, nas palavras de Haydn, “elegendo o artista ao posto de herói de sua própria música”. O filme discute as tensões entre as classes sociais após a revolução Francesa, a postura desafiadora de Beethoven que enxergava o vento republicano como definitivo, além de jogar luz sobre a sinfonia e seus recursos melódicos e estruturais, em todos os seus 4 maravilhosos movimentos.
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Val Kilmer “possuído” por Jim Morrison, na interpretação de sua vida em “The Doors”, de Oliver Stone
  • The Doors, de Oliver Stone (EUA – 1991): Jim Morrison é o típico herói de Stone, que dedicou sua filmografia a investigar a “tragédia americana”, ou seja, o esgotamento progressivo dos ventos democráticos e libertários num país fundado sob esses mitos. E o filme tem essa intenção de painel histórico  de um Estados Unidos em efervescência política e cultural. O irascível Morrison (numa interpretação assustadora de Val Kilmer) é o gênio total que se esgota na América individualista e infantilizada. O arco dramático clássico de ascensão e queda de um dos mais icônicos músicos da sua geração.
  • 32 curtas Metragens sobre Glenn Gould, de François Girard (Canadá – 1993): Estudo de personagem sobre o gênio do piano, o canadense Glenn Gould. A progressiva solidão e excentricidade do músico é retratada através de relatos de pessoas que conviveram com Gould, além de retratos ficcionais interpretados por Colm Feroe. E conforme o filme avança, vai se formando um retrato fílmico e muito respeitoso do músico que revolucionou a interpretação pianística, em especial Bach.
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A Divertida homenagem de Zemeckis aos fãs dos Beatles, em “Febre de Juventude”
  • Febre de Juventude, de Robert Zemeckis (EUA – 1978): Divertida Estreia de Zemeckis onde ele entrega uma tocante homenagem aos fãs dos Beatles. O filme narra a aventura de 6 jovens, fãs da banda, que fazem de tudo para chegar perto dos seus ídolos, durante o famoso show realizado no programa de Ed Sullivan, na primeira visita dos Beatles aos EUA.
  • Farinelli, de Gérard Corbiau (França e Itália – 1994): O filme retrata o auge do uso da voz dos Castrati (garotos castrados ainda na infância, proporcionando assim o atingimento de agudos inimagináveis em adultos), por volta das primeiros anos do século 17. Cinebiografia do maior dos castratis, Carlo Broschi, cuja voz foi o sonho de compositores como Haendel. O filme discute os limites morais da arte, ainda que o forte seja a reconstituição de época e o drama pessoal de Broschi, que por sua condição era considerado quase como um objeto pelos seus contemporâneos.
  • The Wonders – Tudo por um sonho, de Tom Hanks (EUA – 1996): Primeiro filme dirigido por Tom Hanks, o filme é uma carinhosa homenagem às muitas bandas de Rock que aparecem no cenário musical americano, inspiradas pelo estilo e musicalidade do fenômeno da “Beatlemania”. Hanks dirige com leveza surpreendente, o filme estabelece rapidamente empatia com os eu público.
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A tocante história do atormentado pianista David Helfgott, numa interpretação inesquecível de Geoffrey Rush
  • Shine – Brilhante, de Scott Hicks (Ausstrália – 1996): Tocante cinebiografia do talentoso pianista David Helfgott, que projetou o ator Geoffrey Rush para o estrelato. Típica jornada do artista atormentado pelo pai castrador e que sofre um colapso nervoso após desafiar o concerto Nº3 de Rachmaninoff. O arco dramático do filme entrega a redenção do personagem, já no 3º ato do longa. Narrativa convencional, mas bem dirigida. E o trabalho dos atores leva o filme nas costas.
  • A Lenda do Pianista do Mar, de Giuseppe Tornatore (Itália – 1998): O filme mais ambicioso e operístico de Tornatore, o diretor mais influenciado por Fellini no cinema italiano. O lirismo melancólico e o clima onírico do filme estão nos planos elaborados e na belíssima trilha do mestre Ennio Morricone. Um homem se criou num navio de cruzeiro durante as primeiras décadas do século XX, e se expressa através do piano, que domina (de forma autodidata) como poucos no mundo.
  • Alta Fidelidade, de Stephen Frears (EUA – 2000): Homenagem de Frears ao universo da música pop e de como a música se estabelece no imaginário das pessoas como marco ou referência para situações e acontecimentos de suas músicas. Extraordinária direção de atores, onde brilha particularmente Cusack.
  • A Escola do Rock, de Richard Linklater (EUA – 2003): O filme que lança Jack Black ao estrelato, dirigido pelo cultuado Linklater. Mais uma homenagem ao pop e o rock em especial, onde o diretor brinca com os maiores estereótipos do universo do rock de forma respeitosa e cativante.
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Beethoven como herói irascível e sofredor do Romantismo em “Minha Amada Imortal”, de Bernard Rose
  • Minha Amada Imortal, de Bernard Rose (EUA – 1994): A direção de Rose é pesada, atraída pelo senso estético do exagero dramático, o que para os histrionismos de Gary Oldman dos anos 90 foi um prato cheio. Seu Beethoven é um ser furioso e intenso, que grita e ama mais do que suas biografias indicam. Ainda assim o filme possui lindas e inspiradas passagens, como aquele em que sua amante descobre a surdez do músico.

Stone e a busca de Redenção para a Tragédia Americana

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“Snowden”, de Oliver Stone, é seu o melhor filme em muito tempo

Fazia tempo que eu não me empolgava com um filme de Oliver Stone, até assistir seu Snowden” (2016), que trata do já famoso analista de dados da CIA, Edward Joseph Snowden, e sua corajosa decisão de denunciar, através de jornalistas combativos e independentes, as ações do monstruoso sistema de vigilância global da NSA e a virtual quebra de privacidade de basicamente toda a comunicação de voz e dados de pessoas, empresas e governos do mundo!!! Sim, do mundo…

O filme de Stone é surpreendentemente sóbrio, para um realizador caracterizado por uma frenética narrativa, de cortes rápidos, zooms e toda sorte de maneirismos. E, devidamente contido nas suas experimentações estéticas, foca na condução competente de uma história poderosa sobre um jovem brilhante e autodidata, que movido por um idealismo patriótico (e inocente, acrescentaria), ingressa nas forças de segurança do país, sensibilizado pelo 11/09, disposto a dar a vida para defende-lo. Inicialmente no exército, onde não possui o vigor físico necessário para a vida de soldado, Snowden encontra na CIA (e demais aparatos de segurança) o local ideal para dar vazão ao seu talento com computadores, programação e análise de dados.

O filme narra esses saltos na vida do personagem de forma econômica e fluída. E a interpretação de Joseph Gordon-Levitt é brilhante, desde a caracterização da voz até os trejeitos físicos de Snowden, traduzindo a racionalidade e a timidez do personagem de forma admirável. Recomendo o excelente documentário Citzenfour (2014), de Laura Poitras. O filme de Stone dialoga e respeita, admiravelmente, o documentário de Poitras, retratando com fidelidade os diálogos entre o jovem analista e os jornalistas, escolhidos a dedo (dentre eles o Bravo Glenn Greenwald, que mora no Brasil e que, inclusive, denunciou o golpe sofrido por Dilma).

A história é um prato cheio para Stone, obcecado pela investigação da Tragédia Americana, ou seja, os caminhos tomados pelo gigante do Norte (em especial da sua tecnocracia) e a sua acelerada e progressiva distância das expectativas e promessas que constituem os mitos nacionais estadunidenses, de terra prometida da democracia e esperança.

De fato, Stone acreditou nesses mitos. Como alguém nascido e crescido nesse sistema de crenças, ele experimentou as grandes contradições morais do discurso épico da civilização americana. E até lutou numa guerra (a do Vietnã), provavelmente tomado por esse patriotismo onipresente.

Como cineasta, é inegável a força e coesão de sua obra. Podemos discutir seus filmes, e a oscilação natural de alguém com uma vasta cinematografia. No entanto, ele é incansável na investigação e na denúncia ao estabelecimento militar-político-financeiro estadunidense, sua frieza corrupta e tecnocrática, verdadeira antítese do mito clássico americano.

O “drama” de Stone, homem progressista e liberal, se revela na estrutura narrativa de vários de sus filmes mais importantes. É importante discutir o padrão bem definido em vária de suas tramas, que emula a sua própria jornada, de soldado numa guerra tipicamente imperial a um artista incomodado com os rumos do seu pais.

Esse padrão revela personagens que despertam do modelo mental no qual estão submetidos. Num segundo momento, são tomados por uma fúria contestadora. Entre a desilusão e o despertar de consciência, desenvolve-se o arco dramático de personagens icônicos da cinematografia de Stone, verdadeiros Alter Egos do cineasta, como o soldado Chris Taylor (Charlie Shenn) de “Platoon (1986), o iludido Bud Fox (novamente Charlie Sheen) de “Wall Street (1987) e o ativista Ron Kovic (Tom Cruise) de “Nascido em 4 de julho(1989). O inocente e idealista Edward Joseph Snowden junta-se, portanto, à galeria de personagens onde, cada um ao seu jeito, contam um pouco da trajetória do próprio cineasta, que dedicou praticamente toda sua cinematografia na denúncia dos delírios sociais e imperiais estadunidense, uma sociedade que, sob suas ácidas lentes, transformou-se numa nação de exageros consumistas e psíquicos. Do conservadorismo extremado em “Talk Radio” (1988), passando pelo asfixiante mercado financeiro de “Wall Street” (1987), ou mesmo sua sequência, em 2010, até a espetacularização da mídia (retratada de forma alucinada em “Assassinos por Natureza” de 1994) e os atos imperiais estadunidenses, de interferência em países estrangeiros, como Salvador (1985), “Platoon” (1986) e “Nascido em 4 de julho”(1989).

Por isso, ao assistir “Snowden”, que repito, é o filme mais sóbrio de Stone em anos, me lembrei de um de seus projetos mais combatidos e detratados pela crítica: “Alexandre”, de 2004.

Foi o filme mais caro de Stone (algo como US$ 150 milhões). Criticou-se o elenco estrelar (Hoopkinks, Farell, Jolie, Leto e Kilmer, dentre outros), suas interpretações, a duração do filme, a narrativa entrecortada de flashbacks, a estética particular de Stone e até a homossexualidade de Alexandre retratada no filme.

Pouco se notou, à época, que aquele filme era o vórtex fílmico de Stone, onde todos os outros convergiam. Era a leitura política do cineasta, através do uso de um personagem clássico e épico, suficientemente rico em camadas, para que, dessa forma, pudesse discutir seu próprio pais, os Estados Unidos da América.

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Stone dirigindo Colin Farell no set de “Alexander”: o filme concebido por Stone para seu testamento político

Alexandre, enquanto general e líder de um império em expansão, incorporou as nações conquistadas, seus códigos e ritos, incorporando-as ao modo de vida de grego. Essa expansão militar, travestida de campanha civilizatória helênica, para subjugar e converter os bárbaros ao modo civilizado (e grego), transformou-se numa experiência rica e singular. Sem dúvida alguma, Alexandre influenciou (e muito) o mundo antigo. Os Romanos o idolatravam. Alexandre, fundamentalmente, marchou por uma ideia; um mudo livre da ignorância e submetido (de bom grado) ao civilizado mundo grego.

A tragédia americana, segundo Stone, é esse potencial desperdiçado, de uma nação de imigrantes, do novo mundo, enriquecida e dinamizada pela convergência de povos e culturas, destinada à expansão do mundo livre, que se converte, aos poucos, num império imperfeito e liderado por uma tecnocracia fria, e por vezes, ignóbil (daí sua obsessão por presidentes americanos, como nos filmes Nixxon, de 1995, e W., de 2008).

Portanto, munido dessa ambição, Stone lançou-se na aventura do seu filme mais complexo, sua visão geopolítica particular através de um épico intenso e nada óbvio, mesmo considerando o tradicional arco dramático de uma cinebiografia.

Eu defendo (e muito) “Alexandre” contra seus detratores. Adoro a trilha sonora de Vangelis, que soube capturar o tom épico e intimista do personagem. A fotografia de Rodrigo Prieto é também digna de nota, com suas grandes tomadas épicas em campo aberto, em especial nas grandes (e bem construídas) sequências de batalhas. E eu até defendo as interpretações exageradas de Farell ou Jolie.

Com “Snowden”, o velho cineasta volta em forma para fazer aquilo que faz de melhor: mergulhar nas entranhas do império, denunciar suas mazelas e procurar, por fim, sua redenção moral.

Curso no SESC – A democracia na América Latina e o Cinema

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Eles não usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman

Mais uma vez tivemos a alegria de voltar ao Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (Sesc CPF) e encontrar velhos amigos, além de estabelecer novas amizades. Gente querida que conhecemos por conta do cinema. Do amor ao cinema. Os encontros ocorreram nos dias 21/11, 28/11 e 05/12.

O tema escolhido foi a forma como o cinema retrata a questão da Democracia na América Latina. Tema Atual e Urgente.

Pudemos percorrer cinematografias importantes e bastante atuantes na investigação e retrato de um tema tão importante. O cinema Argentino, Chileno e também (e de forma muito distintiva) o Brasileiro foram fundamentais para a análise do tema proposto. Na américa Latina, a democracia não é, definitivamente, um valor absoluto. Daí a importância, inclusive histórica, do cinema como vetor de uma maior consciência política da população.

Mas, antes de tudo, discutimos cinema. Falamos sobre cinema. E do valor fílmico de obras seminais como “Eles não usam Black-Tie”, de Leon Hirszman. Identificamos alguns temas no cinema ao retratar período histórico tão conturbado. E ousamos enxergar tendências artísticas e políticas, em especial para o cinema Brasileiro, por conta das transformações e tensões do nosso conturbado cotidiano.

Foi divertido. Até um próximo programa.

E viva o cinema.

Abaixo a lista dos 68 filmes discutidos e ou mencionados nas três aulas do programa:

1º dia – Cinema Latino Americano, sobretudo o Argentino e o Chileno

  1. A História Oficial (Argentina – 1985) / Dir.: Luis Puenzo
  2. A Noite dos Lápis (Argentina – 1986) / Dir.: Héctor Olivera
  3. Garagem Olimpo (Argentina – 1999) / Dir.: Marco Bechis
  4. Kamchatka (Argentina – 2002) / Dir.: Marcelo Piñeyro
  5. O Clã (Argentina – 2015) / Dir.: Pablo Trapero
  6. O mesmo Amor, a mesma Chuva (Argentina – 1999) / Dir.: Juan José Campanella
  7. O Segredo dos seus Olhos (Argentina – 20100 / Dir.: Juan José Campanella
  8. Os Rapazes da Guerra (Argentina – 1984) / Dir.: Bebe Kamin
  9. Iluminados pelo Fogo (Argentina – 2050 / Dir.: Tristán Bauer
  10. Palavra por Palavra (Argentina – 2008) / Dir.: Edgardo Cabez
  11. A Batalha do Chile (Chile – 1975/1980) / Dir.: Patrício Guzmán
  12. Chove sobre Santiago (Chile – 1976) / Dir.: Helvio Soto
  13. Machuca (Chile – 2004) / Dir.: Andrés Wood
  14. Dawson, Ilha 10 (Chile – 2010) / Dir.: Miguel Littin
  15. Allende em seu Labirinto (Chile – 2014) / Dir.: Miguel Littin
  16. Tony Manero (Chile – 2008) / Dir.: Pablo Larraín
  17. Post Morten (Chile – 2010) / Dir.: Pablo Larraín
  18. No (Chile – 2012) / Dir.: Pablo Larraín
  19. Olho na Nuca (Uruguai – 2001) / Dir.: Rodrigo Plá
  20. Vozes Esquecidas (México – 2005) / Dir.: Luis Mandoki
  21. Paisito (Uruguai – 2008) / Dir.: Ana Díez
  22. Faca de Pau (Paraguai – 2010) / Dir.: Renate Costa Perdomo
  23. Esquecidos (Bolívia – 2013) / Dir.: Carlos Bolado

2º dia – Cinema Brasileiro

  1. Os Fuzis (Brasil – 1964) / Dir.: Rui Guerra
  2. O Desafio (Brasil – 1965) / Dir.: Paulo César Sarraceni
  3. São Paulo S.A. (Brasil – 1965) / Dir.: Luis Sérgio Person
  4. Terra em Transe (Brasil – 1968) / Dir.: Gláuber Rocha
  5. Manhã Cinzenta (Brasil – 1968) / Dir.: Olney São Paulo
  6. Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia (Brasil – 1978) / Dir.: Hector Babenco
  7. Paula, a História de uma Subversiva (Brasil – 1979) / Dir.: F. Ramalho Jr.
  8. Eles não Usam Black-Tie (Brasil – 1981) / Dir.: Leon Hirszman
  9. Para Frente Brasil (Brasil – 1982) / Dir.: Roberto Farias
  10. Cabra Marcado para Morrer (Brasil – 1984) / Dir.: Eduardo Coutinho
  11. Jango (Brasil – 1984) / Dir.: Sílvio Tendler
  12. Lamarca (Brasil – 1994) / Dir.: Sérgio Rezende
  13. Dois Córregos (Brasil – 1998) / Dir.: Carlos Reichenbach
  14. Ação entre Amigos (Brasil – 1998) / Dir.: Beto Brant
  15. O ano que meus país saíram de Férias (Brasil – 2006) / Dir.: Cao Hamburger
  16. Batismo de Sangue (Brasil – 2007) / Dir.: Helvécio Ratton
  17. Entreatos (Brasil – 2004) / Dir.: João Moreira Salles
  18. Hércules 56 (Brasil – 2007) / Dir.: Silvio Da-Rin
  19. Cidadão Boilesen (Brasil – 2009) / Dir.: Chaim Litewski
  20. O Dia que durou 21 anos (Brasil – 2012) / Dir.: Camilo Tavares
  21. Tropa de Elite (Brasil – 2007) / Dir.: José Padilha
  22. Federal (Brasil – 2010) / Dir.: Eric de Castro
  23. Tropa de Elite 2 (Brasil – 2010) / Dir.: José Padilha
  24. Operações Especiais (Brasil – 2014) / Dir.: Tomás Portella
  25. O Candidato Honesto (Brasil – 2014) / Dir.: Roberto Santucci
  26. Branco Sai, Preto Fica (Brasil – 2015) / Dir.: Adirley Queirós
  27. Aquarius (Brasil – 2016) / Dir.: Kléber Mendonça

3º Dia – Cinema Europeu e Estadunidense

  1. Brazil, a Report on Torture (EUA – 1971) / Dir.: Haskell Wexler e Saul Landau
  2. Estado de Sítio (França e Itália – 1972) / Dir.: Costa-Gavras
  3. O Poderoso Chefão II (EUA – 1974) / Dir.: Francis Ford Coppolla
  4. Missing (EUA e França – 1982) / Dir.: Costa-Gavras
  5. Salvador (EUA – 1986) / Dir.: Oliver Stone
  6. Walker (EUA – 1986) / Dir.: Alex Cox
  7. Romero (EUA – 1989) / Dir.: John Duigan
  8. A Morte e a Donzela (EUA e França– 1994) / Dir.: Roman Polanksi
  9. 11´09´´01 September 11 (EUA, França e UK – 2002) / Dir.: Curta de Ken Loach
  10. A Revolução não Será Televisionada (Irlanda – 2003) / Dir.: Donnacha O’Briain
  11. El Comandante (EUA – 2003) / Dir.: Oliver Stone
  12. Looking for Fidel (EUA – 2004) / Dir.: Oliver Stone
  13. Ao Sul da Fronteira (EUA – 2009) / Dir.: Oliver Stone
  14. Meu Amigo Hugo (EUA e Venezuela – 2014) / Oliver Stone
  15. Bananas (EUA – 1971) / Dir.: Woody Allen
  16. Luar sobre Parador (EUA – 1988) / Dir.: Paul Mazurski
  17. A Casa dos Espíritos (Alemanha e França – 1993) / Dir.: Bille August
  18. Evita (EUA – 1996) / Dir.: Alana Parker

Distopia e pessimismo social no cinema atual: reflexos de um presente caótico

O cinema é uma forma de arte particularmente interessada no futuro. E num momento de profunda incerteza social e econômica, as mensagens que irradiam dos filmes que se lançam sobre o tema são, via de regra, sempre alarmantes e desoladoras. A radicalização das hipóteses construídas sobre a nossa caótica pós-modernidade, embaladas na mais desconcertante distopia, lançam sobre esse futuro uma lente de desconfiança e ceticismo.

Profundo Ceticismo.

O tema intersecciona gêneros e subgêneros cinematográficos. Vai da ficção-científica convencional ao universo Zumbi.

E se nos anos 70 e 80 o medo do extermínio nucelar era real e concreto, pautando cenários pós-apocalípticos e selvagens (cujo exemplo maior se destaca a série clássica “Mad Max” do gênio George Miller), os anos 2000 se caracterizam por um maior inventário de temores. No plano político, os ventos conservadores e nacionalistas que sopram do núcleo do sistema capitalista global (EUA e Europa Ocidental) e a onipresença do “grande irmão” tecnológico, em mãos governamentais cada vez mais distantes dos interesses populares, tornam nosso cotidiano potencialmente perigoso. A desconfiança que recai sobre as classes política e empresarial, nesse contexto tão incerto e amargo, transforma-se em oportunidade para cineastas interessados em criticar nosso cotidiano através das tintas da distopia. Nesse sentido, é um retorno da ficção e do fantástico para os temas explorados pelo grande George Romero e os seus ácidos filmes de Zumbis, que nos anos 60, 70 e 80 cumpriram esse papel de crítica às massas insonsas e consumistas do capitalismo total.

O cinema, recorrentemente, se volta para o fantástico como forma crítica de enxergar a nossa realidade.  O antológico “Blade Runner” (1982), de Ridley Scott, oferecia um futuro com um vazio institucional e dominado por grandes empresas e um planeta consumido pelo caos ambiental e social.  Podemos lembrar, no passado recente, de filmes como “Mad Max: Fury Road” de George Miller e “Elysium”, do jovem Neill Blomkamp, como bons exemplos dessa tendência.

O que na minha opinião difere os filmes dessa safra dos de outras épocas é a forte conotação social, que remete a uma luta de classes ressignificada, o que antes era algo restrito às entrelinhas de suas narrativas.

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Snowpiercer(2013), de Joon-Ho Bong

Filmes como “Snowpiercer” (Expresso do amanhã), do sul-coreano Joon-Ho Bong, ou “The Purge” (Uma noite de crime), de James DeMonaco, ambos de 2013, colocam o elefante na sala: a luta de classes reestilizada, redimensionada pela pulverização dos estados nação e a dramática crise de representatividade. Uma crise de ideias e de propósitos.

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The Purge (2013), de James DeMonaco

A indigesta realidade é extraordinariamente captada por esses filmes, assim como o pessimismo que exala dos mesmos. A analogia da sociedade classista e violenta vista através de um trem pós-apocalíptico em “Snowpiercer” (o fantasma do apocalipse ambiental) que comporta as classes sociais em seus respectivos vagões (com toda a sorte de privilégios para alguns e martírios para outros tantos) é tão direta e sem tergiversações como a sociedade americana futurista de “The Purge”, que elege um dia do seu calendário anual de “eventos” para permitir que as pessoas se matem indiscriminadamente, sendo, dessa forma, uma oportunidade única para a exaltação de sadismo de suas elites, que caçam pobres e outros indesejáveis pela rua.

A nova classe social dos “super-executivos”, os verdadeiros condutores da vida moderna, também são retratados como indiferentes, arrogantes, violentos e profundamente individualistas. Segundo o economista Thomas Piketty, vivemos sob o julgo da “era dos executivos”, onde a moral meritocrática dessa classe dita um ritmo alucinante e fugaz para o moderno capitalismo.

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Train to Busan (2016), de Yeon Sang-ho

No filme “Train to Busan” (Invasão Zumbi – a distribuidora brasileira deu um título idiota ao filme), do sul-coreano Yeon Sang-ho, uma crise Zumbi devasta o mundo. A história é narrada sob as perspectivas de uma garotinha e seu pai executivo, frio e distante. A evolução da trama nos deixa entender que um acidente numa fábrica da empresa onde o personagem do executivo trabalha é a responsável pela crise.

Alienação destrutiva e inconsequente. Conforme avança o filme, nos deparamos com outro executivo, transformado em vilão no ato final, que não pensa duas vezes em sacrificar qualquer um para que ele possa viver.

Palmas para o inventivo e sempre surpreendente cinema sul-coreano, decerto um dos mais originais do cinema atual.

Lembro também do brasileiro Rodrigo Aragão e sua trilogia sobre o terror ambiental (“Mangue Negro”-2008, “A noite do Chupa-Cabras”-2011 e “Mar Negro”, de 2013), que que usa o gênero Zumbi, com sotaque bem nosso, para denunciar os efeitos danosos da ganância do homem sobre o meio-ambiente. Quero falar mais sobre o cinema inventivo de Aragão numa outra oportunidade.

O mestre Romero reclamou, dias atrás, da série “The Walking Dead”, por sua timidez em aprofundar questões urgentes, desperdiçando a catarse Zumbi em tramas esquemáticas e organizadas como um grande videogame, onde a superação de um terrível vilão indica o surgimento de um novo.

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Oz Zumbis da Série “Walking Dead”não fazem pensar. E, ultimamente, nem arrepios conseguem provocar…

No entanto, é certo que o alerta de Romero está sendo ouvido, nesse momento, por jovens e irrequietos diretores mundo afora.

Também é importante lembrar dos filmes e séries que usam a tecnologia como instrumento de terror e controle social. A série Black Mirror, de Charlie Brooker, adota um tom profundamente pessimista em relação à tecnologia, em especial aquelas que orbitam em volta das redes sociais e a sua onipresença nas vidas das pessoas. Terror psicológico, controle social e sadismo são sub-produtos da interferência cada vez mais abusiva e desmedida da tecnologia na vida das pessoas. Porém, essa desconfiança já era percebida  em filmes como Videodrome (1983), de Cronenberg (como bem lembrou um amigo…das redes sociais), ou mesmo Westworld (1973), de Michael Chrichton. A fetichização da tecnologia e sua inserção violenta e acrítica no mundo definitivamente acompanha o homem desde à revolução industrial.

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Videodrome (1983), de Cronenberg

A velocidade do progresso tecnológico e as inseguranças sociais provocadas por esse choque econômico e cultural continuarão a fornecer insumos para o cinema provocador.

É o que se espera da arte: provocar. Divertir também…mas, sobretudo, provocar.

E refletir…

 

12 Homens e Uma Sentença – Versão Russa

Seguindo a sua tradição política, Nikita Mikhalkov (diretor de cinema e filho Sergei Mikhalkov, autor do hino nacional da União Soviética) apresenta os desafios de uma Rússia que tenta se reinventar, mas ainda é assombrada por seus antigos problemas em um de seus últimos trabalhos “12”, 2007. O enredo é uma refilmagem do americano “12 homens e um sentença”, primeira versão de Sidney Lumet (1957), e a segunda versão. Doze homens que compõe um júri responsável por decidir se um jovem acusado de matar o próprio pai deve ou não receber a pena de morte. Onze jurados acreditam que sim, com exceção de um que com inúmeras argumentações começa a persuadir os demais das incongruências de provas e depoimentos que tanto a promotoria, quanto a defesa parecem ter desconsiderado. Aos poucos vão sendo desconstruídos estereótipos e julgamentos morais que refletem a personalidade e os valores de cada jurado.

 

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Mikhalkov dá um novo tom ao enredo revelando não apenas as personalidades de cada personagem, mas também a grande transformação que vem passando seu país, a Federação Russa, desde o fim da União Soviética em 1991. Trata-se de um período de transição que ainda não chegou a sua conclusão, deixando transparecer a questão maior, que consta em todos os filmes de Mikhalkov: qual será a Rússia do futuro? Um país, que juntamente com o restante do mundo vem sofrendo modificações desde o âmbito político ao cultural, mas que apresenta suas peculiaridades, devido à história única e o que durante décadas representou para várias gerações. Uma Rússia que tenta redefinir-se, mas que encontra diversos desafios provenientes de seus primeiros anos de capitalismo. Consta também a indagação dos princípios de democracia e respeito aos direitos humanos, preceitos que quanto aos seus reais significados ainda encontram grande debate na população russa.

Assim, além de um negro, ou de um porto-riquenho, temos um jovem checheno, vítima da guerra, que teve seus pais mortos pelo movimento separatista, mas é adotado pelo amigo da família, um capitão do exército russo. As duas versões americanas utilizam apenas uma sala e um banheiro como cenários, de maneira que o desenvolvimento da trama depende exclusivamente dos diálogos. Já a versão russa se passa em ginásio esportivo, pois a sala de reunião ainda está sendo construída. Flash backs entre o ginásio e as cenas do menino pequeno em diferentes momentos. O primeiro ele é persuadido pelos separatistas mulçumanos a integrar o grupo de matar russas, mas que logo é impedido pelo pai, também mulçumano, a voltar para casa e estudar.

 

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Depois, o menino encontra os pais mortos e vagueia pelas ruas até ficar entre fogo cruzado das tropas russas e separatistas, o que o levam a se esconder em um cômodo abandonado para se encontrado pelo amigo da família e futuro pai adotivo..A segunda versão americana trata-se apenas de uma refilmagem adaptada para os anos 1990 e para a televisão. Mas na versão de Mikhalkov, apenas alguns fatos como a reconstituição de uma cena para averiguar o argumento de uma testemunha que afirmava ter ouvido o jovem matar o pai e depois fugido. Porém, os seus problemas de saúde não teriam tido tempo suficiente para levantar de sua cama e ir até o corredor do andar em questão e ver o réu escapar da cena do crime.

Ou ainda a faca que o jovem teria utilizado para assassinar o pai, mas que com os flashs backs percebemos que se trata da faca utilizada pelos terroristas para matar a família do rapaz. A mesma faca que o médico georgiano (Sergei Gazarov), depois de muito aturar as indiretas do taxista racista interpretado Sergei Garmach, e que é a personagem central de todo o debate, sendo praticamente o último a ser convencido da provável inocência do réu, utiliza para demonstrar seu excelente manuseio de instrumento, que segundo ele é uma forma de cultura no Cáucaso. As demais situações não apresentam a mesma importância que são muito relevantes nas versões americanas, não tem a mesma importância.

 

 

Desde as duas guerras na Chechena, 1991 e 1999, a população vem enfrentando uma série de ataques terroristas, o que provocou uma rejeição da população russa, principalmente em cidades principais como Moscou e São Petersburgo, aos imigrantes do Cáucaso. A Rússia, que é segundo país depois dos Estados Unidos a receber o maior número de imigrantes, quase todos provenientes dos países que integravam o bloco soviético, encontram-se em uma luta interna constante consigo mesma para integrar esta população em uma nova noção de país.

Com este desafios são explicitados outros como um sistema político que ainda é regido pela lei do mais forte e da sobrevivência, como ressalta o administrador de cemitérios (Aleksei Gorbunov) que descreve o esquema que aproveita o momento frágil das famílias para lucrar com o sofrimento alheio; ou das medidas tomadas pelas grandes construtoras, muitas controladas por oligarcas, para retirar os antigos moradores de suas casas, demolir e reconstruir prédios novos; ou ainda o neto ator (Mikhail Iefremov), agora já crescido, que tentou fazer a avó rir, enquanto ela morria, esperando a ambulância que demorava a chegar. A complexidade humana também está presente como o jurado (Sergei Makovetski), peça chave que iniciará o processo de persuasão dos demais, e criador de uma nova tecnologia da comunicação, que quer vender para uma empresa nacional, mas não consegue compradores.

 

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Ele acaba entrando em depressão e torna-se alcoolista até que um dia uma mulher que seria sua segunda esposa o salva com um simples gesto de compreensão. Há também o caso da vizinha de meia idade e testemunha no caso, apaixonada pelo capitão, que faz de tudo para acabar com o seu casamento e a sua família. Estas e outras histórias vão sendo reveladas aos poucos e de forma aleatória, tendo como fio condutor apenas a personagem de Sergei Garmach,o taxista racista que será persuadido quando vem à tona a discussão da crueldade feminina, capaz de tudo para conseguir formar uma família, como ele próprio testemunhou em sua vida. Com essas e outras história o diretor Mikhalkov pinta um retrato da sociedade russa atual e da complexidade do homem e sua existência.